Praticantes das religiões africanas foram condenados pela Inquisição
Foram centenas deles; até tocar tambor era motivo para se ser acusado de bruxaria
Felipe Branco Cruz
No século 18, a economia de São Paulo dependia da lavoura e do plantio da cana-de-açúcar. O Brasil ainda era colônia de Portugal e a Inquisição voltava a ganhar força na metrópole europeia. Estima-se que nesse período pouco mais de 9 mil pessoas viviam na cidade. No Norte e no Nordeste do Brasil, os padres a serviço do Tribunal do Santo Ofício reapareceram. Mas na longínqua São Paulo a prática não era comum. Foi somente depois de 1745,quando tornou-se sede de um bispado, separando-se da diocese do Rio de Janeiro, que os inquisidores voltaram seus olhos para a pequena cidade do sudeste do país.
A inquisição em São Paulo, e de maneira geral em todo o Brasil, confundiu sistematicamente os rituais africanos com feitiçaria – e processou centenas, no que podia terminar na fogueira, ou o garrote, depois a fogueira, ou a perda de todos os bens - o que não era opção em se tratando de escravos. As vítimas não eram executadas aqui, pois a colônia não tinha tribunais eclesiásticos específicos, e os condenado seriam enviados para ser julgados e mortos em Portugal. Não existe em São Paulo o resultado final dos processos, então essa parte ainda está a ser desvendada. Sabe-se que dezenas de brasileiros foram queimados vivos, mas esses casos bem-documentados são principalmente de brancos acusados de judaísmo. Escravos não tinham existência jurídica como indivíduos, só propriedade.
+ Brasileiros na fogueira da Inquisição
Nos arquivos brasileiros, descobrimos gente como a escrava Paschoa, que viveu em São Paulo após ter sido vendida no Rio de Janeiro para uma família paulista. O ano era 1749 e Paschoa ficava dentro de casa cuidando da família Leyte Ribeiro,de sete pessoas. Após sua chegada,os senhores começaram a adoecer, e cinco membros da família morreram. Sobre a escrava pesou a acusação de bruxaria, principalmente depois de descobrirem ossos de galinha dentro de uma panela enterrados no quintal e também outros, escondidos dentro da parede e debaixo da cama de um dos filhos da família. Paschoa foi julgada e considerada culpada por bruxaria pela Inquisição. Sua história, por causa disso,ficou registrada em um processo e está há 265 anos arquivada na Cúria Metropolitana da Arquidiocese de São Paulo. Se não fosse assim, dificilmente a sua vida seria conhecida,e Paschoa seria apenas mais uma escrava que viveu e morreu no Brasil do século 18 sem deixar registro.
Ossos de galinha
Bastante castigados, alguns dos processos da Inquisição em São Paulo estão protegidos por uma camada de papel-arroz que conserva os documentos e impede que se desmanchem ao serem manuseados. Todas as 1 550 páginas de processos abertos entre 1739 e 1771 sobre bruxaria foram fotografados e estão sendo transcritas por pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Paschoa foi considerada culpada e provavelmente levada a Portugal, onde pode ter sido executada. Entre as declarações das testemunhas de acusação, boa parte foi composta de “ouvi dizer”, “acho que”, “disseram”... Alguns acusaram a escrava – sem provas – de ter assassinado várias pessoas no Rio de Janeiro, o que levou os juízes a concluir que a “ré usou de magia para matar gente”. O relato de Paschoa para sua senhora dizia o contrário:os ossos de galinha teriam sido colocados lá pela escrava “porque lhe tinham ensinado” e “que prometia que agora logo havia de sarar”.
Arquivados na Cúria, os processos corriam na Justiça Eclesiástica, órgão a serviço da Inquisição, que condenava as pessoas por motivos como heresia (afronta à religião), apostasia (renegar a fé), bruxaria(na época, qualquer ato contrário à fé católica), judaísmo, homossexualismo, sodomia, vida marital sem casamento, entre outras razões.
Bruxaria
Em São Paulo, onde a Inquisição não chegou a marcar presença como no Nordeste, os principais alvos eram os praticantes de ritos vistos como feitiçaria. Não, não era a bruxaria da Idade Média, com caldeirões e velhas assustadoras. De acordo com a equipe da USP, os órgãos da Justiça Eclesiástica consideravam bruxaria as práticas das religiões africanas ou outros ritos que iam contra a fé católica.“Eles não entendiam ou não aceitavam outras religiões que não fosse a católica”, diz Nathalia Reis Fernandes, uma das pesquisadoras.
Embora a maioria dos acusados tenha sido considerada culpada na investigação preliminar que era realizada pela Justiça Eclesiástica, não se sabe o fim dos réus. Ao contrário do que ocorria, por exemplo, na América Espanhola, não havia Tribunal do Santo Ofício no Brasil.“Não sabemos o que ocorreu com os condenados. A maioria dos documentos está guardada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa” afirma Helena de Oliveira, da USP. No edifício estão registrados 40 mil nomes de pessoas perseguidas, mas sem classificações por local de nascimento, o que dificulta a identificação
Patuás
Outra dificuldade em localizar esses arquivos em Portugal ocorre porque os escravos eram registrados, na maioria das vezes, apenas pelo primeiro nome. “Como eram considerados mercadorias, não possuíam nome de família”, diz Helena.Um dos processos mais completos encontrados pelas pesquisadoras é o do ex-escravo Pascoal José de Moura,de 1765, que vivia em Araritaguaba,atual Porto Feliz, a 100 km de São Paulo. O homem foi condenado porque produzia patuás para proteção.Os objetos eram uma espécie de amuleto com orações usadas para proteger da morte e do perigo quem os carregasse. “Ainda há uma grande névoa sobre como a Inquisição atuou em São Paulo”, diz Nathalia.“O fato é que Pascoal, negro, livre e alfabetizado, era um exemplo atípico na sociedade”, diz ela.
De acordo com as pesquisadoras, algumas testemunhas afirmaram que Pascoal não fazia mal a ninguém e que carregava os objetos para a própria proteção ou para ajudar outras pessoas. Mesmo assim, foi condenado e provavelmente enviado a Portugal, onde o desfecho do processo ainda é desconhecido. Nathalia destaca que uma das partes mais interessantes do processo são as próprias orações transcritas nos autos, que revelam um pouco da crença do período.
“Trata-se de um tipo de mentalidade medieval. Esses patuás vinham no formato de escapulários. É um costume que está aí até hoje. Na Idade Média havia a crença de que a simples presença de determinada imagem ou objeto já era suficiente para que a proteção se efetivasse”, diz Nathalia. O texto encontrado nos patuás de Pascoal é praticamente idêntico à oração para São Jorge, rezada até hoje pelos devotos do santo católico.
Outros casos
Mas não só escravos ou ex-escravos eram processados pela Inquisição. Outro caso analisado pelas pesquisadoras,de 1771, é o de Leonor de Siqueira e sua filha Anna Francisca. As duas foram acusadas de fazer feitiçarias para transformar o marido de Anna, Manoel José Barreto, em “pateta”. “Era como se ela estivesse fazendo ‘feitiços’ para o marido, porém o motivo é desconhecido”, diz Helena. Infelizmente, esse processo é um dos mais deteriorados e poucas informações sobre ele puderam ser recuperadas.
Em outros casos, manifestações típicas das religiões e da cultura africana eram confundidas com feitiçaria como, por exemplo, a do “povo do batuque”. Quatro pessoas foram flagradas por soldados após alguém denunciar ter ouvido em uma casa abandonada “batuques ilícitos”. Quando os soldados chegaram ao local, encontraram um casco de cágado, patas de bode e uma cabra. Além de algumas misturas com ervas que as testemunhas não sabiam para que serviam.
“Hoje em dia, batucada não é estranho. Faz parte da nossa cultura. Porém imagine para um descendente de português católico fervoroso que vê uma pata de bode? Para ele só há uma explicação: é coisa do demônio. Tudo que eles não entendiam era uma coisa ruim”, afirma Nathalia. “É possível fazer um paralelo com a nossa sociedade atual”, diz o professor Marcelo Módolo, que orienta as duas pesquisadoras da USP. “Hoje, quando alguém vê algo que não entende e aponta aquilo, julgando de maneira preconceituosa, dizendo que é macumba,cai no mesmo erro dos portugueses do passado”, diz. “A Igreja ainda se considera a intermediária entre Deus e os homens e não permite concorrência. Se alguém fizesse uma simpatia e ela funcionasse, como ficaria a moral dos católicos?”
sábado, 9 de setembro de 2017
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
ESPORTE CLUBE OPERÁRIO ARARITAGUABA – 100 ANOS DE GLÓRIAS E TRADIÇÕES
ESPORTE CLUBE OPERÁRIO ARARITAGUABA – 100 ANOS DE GLÓRIAS E TRADIÇÕES
O Esporte Clube Operário Araritaguaba foi fundado no dia 08 de outubro de 1916, depois de várias reuniões envolvendo esportistas ligados, principalmente, à classe operária do Município de Porto Feliz. A denominação do clube é um resgate do primitivo nome desta cidade, chamada pelos índios Tupis/Guaranis de Araritaguaba, aludindo o lugar onde as araras bicavam a areia.
É o segundo clube mais antigo desta cidade e, neste ano, insere o seu nome no seleto rol das agremiações esportivas centenárias do futebol brasileiro. São 100 anos gloriosos de garra, luta e tradição.
O clube que se tornaria ao longo de sua existência uma das agremiações mais queridas desta cidade, nasceu, certamente, na região alta de Porto Feliz, nas imediações do atual Bairro do Bambu, onde também surgiu seu primeiro campo de treinamento.
Entre os esportistas que fundaram o tradicional clube preto e branco de Porto Feliz, destacamos Telésforo Leroy, Ataliba Cardoso, Jorge Casseta, José Antonio, Pedro Rodrigues, Pedro Pinto de Azevedo e José Rodrigues de Campos. Telésforo Leroy, patriarca de tradicional família Araritana, foi o primeiro presidente do Esporte Clube Operário Araritaguaba.
Desde as primeiras jornadas esportivas disputadas no primitivo estádio inaugurado em uma travessa da Avenida Getúlio Vargas, o Esporte Clube Operário Araritaguaba mostrou o espírito aguerrido de seus jogadores. Nessas memoráveis pelejas a gloriosa jaqueta alvinegra foi defendida com galhardia por jogadores inesquecíveis como Fernando e Cesário Leroy, Minguito, José das Neves, Dodô, Tancho, Joel Brienza, Tavico e tantos outros.
Mais tarde surgiriam defendendo as cores alvinegras do Araritaguaba, com o mesmo amor e dedicação, jogadores também inesquecíveis como Hermínio Leroy, Calim Sanna, Dedé, Eugênio Tomé e Armando Sanna.
Ao longo de toda sua gloriosa história o Esporte Clube Operário Araritaguaba sempre foi pródigo em formar grandes jogadores, desde suas equipes menores, até o time principal. Seu atual estádio que se ergue majestoso na Rua João Portela Sobrinho, à sombra dos tradicionais e belos bambuais, continua sendo palco de memoráveis jornadas esportivas e de brilhantes atuações do querido clube alvinegro de Porto Feliz.
Esportistas valorosos têm seus nomes ligados eternamente à história do clube. Tentar nominá-los seria praticamente impossível, sem correr o sério risco de esquecer alguns. Sendo assim e para homenagear, indistintamente, a todos que contribuíram e contribuem com o Esporte Clube Operário Araritaguaba, citamos os saudosos Orlando Silvestre - o Mestre Calango - e José Oswaldo Ramos, verdadeiros símbolos de amor e dedicação à causa Araritana.
O Esporte Clube Operário Araritaguaba nasceu para sacramentar, nas cores preto e branco do seu vistoso uniforme, a igualdade de raças e de credos religiosos, bem como para congregar todas as classes sociais. Nasceu o glorioso Esporte Clube Operário Araritaguaba para reunir sob sua honrosa bandeira todos os esportistas que saibam cultuar a isonomia social e a imprescindível lealdade nos campos esportivos.
Por tudo isso, vestir a gloriosa camisa do Esporte Clube Operário Araritaguaba, ainda que por uma só vez, é gravar na própria alma a marca indelével de um histórico e verdadeiro manto sagrado. Uma vez Araritano, eternamente Araritano!
Reinaldo Crocco Júnior
Ainda não completou 100 anos, mas nasceu Araritano e Araritano será, por todos os séculos dos séculos que virão.
O Esporte Clube Operário Araritaguaba foi fundado no dia 08 de outubro de 1916, depois de várias reuniões envolvendo esportistas ligados, principalmente, à classe operária do Município de Porto Feliz. A denominação do clube é um resgate do primitivo nome desta cidade, chamada pelos índios Tupis/Guaranis de Araritaguaba, aludindo o lugar onde as araras bicavam a areia.
É o segundo clube mais antigo desta cidade e, neste ano, insere o seu nome no seleto rol das agremiações esportivas centenárias do futebol brasileiro. São 100 anos gloriosos de garra, luta e tradição.
O clube que se tornaria ao longo de sua existência uma das agremiações mais queridas desta cidade, nasceu, certamente, na região alta de Porto Feliz, nas imediações do atual Bairro do Bambu, onde também surgiu seu primeiro campo de treinamento.
Entre os esportistas que fundaram o tradicional clube preto e branco de Porto Feliz, destacamos Telésforo Leroy, Ataliba Cardoso, Jorge Casseta, José Antonio, Pedro Rodrigues, Pedro Pinto de Azevedo e José Rodrigues de Campos. Telésforo Leroy, patriarca de tradicional família Araritana, foi o primeiro presidente do Esporte Clube Operário Araritaguaba.
Desde as primeiras jornadas esportivas disputadas no primitivo estádio inaugurado em uma travessa da Avenida Getúlio Vargas, o Esporte Clube Operário Araritaguaba mostrou o espírito aguerrido de seus jogadores. Nessas memoráveis pelejas a gloriosa jaqueta alvinegra foi defendida com galhardia por jogadores inesquecíveis como Fernando e Cesário Leroy, Minguito, José das Neves, Dodô, Tancho, Joel Brienza, Tavico e tantos outros.
Mais tarde surgiriam defendendo as cores alvinegras do Araritaguaba, com o mesmo amor e dedicação, jogadores também inesquecíveis como Hermínio Leroy, Calim Sanna, Dedé, Eugênio Tomé e Armando Sanna.
Ao longo de toda sua gloriosa história o Esporte Clube Operário Araritaguaba sempre foi pródigo em formar grandes jogadores, desde suas equipes menores, até o time principal. Seu atual estádio que se ergue majestoso na Rua João Portela Sobrinho, à sombra dos tradicionais e belos bambuais, continua sendo palco de memoráveis jornadas esportivas e de brilhantes atuações do querido clube alvinegro de Porto Feliz.
Esportistas valorosos têm seus nomes ligados eternamente à história do clube. Tentar nominá-los seria praticamente impossível, sem correr o sério risco de esquecer alguns. Sendo assim e para homenagear, indistintamente, a todos que contribuíram e contribuem com o Esporte Clube Operário Araritaguaba, citamos os saudosos Orlando Silvestre - o Mestre Calango - e José Oswaldo Ramos, verdadeiros símbolos de amor e dedicação à causa Araritana.
O Esporte Clube Operário Araritaguaba nasceu para sacramentar, nas cores preto e branco do seu vistoso uniforme, a igualdade de raças e de credos religiosos, bem como para congregar todas as classes sociais. Nasceu o glorioso Esporte Clube Operário Araritaguaba para reunir sob sua honrosa bandeira todos os esportistas que saibam cultuar a isonomia social e a imprescindível lealdade nos campos esportivos.
Por tudo isso, vestir a gloriosa camisa do Esporte Clube Operário Araritaguaba, ainda que por uma só vez, é gravar na própria alma a marca indelével de um histórico e verdadeiro manto sagrado. Uma vez Araritano, eternamente Araritano!
Reinaldo Crocco Júnior
Ainda não completou 100 anos, mas nasceu Araritano e Araritano será, por todos os séculos dos séculos que virão.
Partidas das Monções
Partidas das Monções (*)
O Tietê
recorda necessariamente o bandeirante e as monções, evoca a louca aventura
desses homens hercúleos e destemidos, metidos em grossos gibões de algodão
acolchoado, chuço e trabuco em punho, que varam o continente; revive as frotas
de canões que rodaram por saltos e tucunduras, transpondo lezirias e vargens
onde grassavam as febres malignas e matagais intricados de cipós em que se
atocaiavam pintadas e suçuranas.
A partida das
monções! Na secura das crônicas do tempo, toscas memórias de viagem para uso da
governança portuguesa, em que as maiores tragédias se anunciam estoica e
rudemente, em fria prosa tabelioa, nesses roteiros e diários há sempre algumas
páginas ungidas de emoção para descrever a largada trágica das frotas para a
atemorizante aventura.
1) Conde de Azambuja
É o conde de
Azambuja, a registrar em grosso papel apergaminhado, sob a tolda protetora da
capitânea as primeiras impressões da viagem "Embarquei a 5 de agosto,
havendo antes disso ouvido missa na freguesia e toda a comitiva acabada ela,
salvou a companhia de dragões com três descargas a Nossa Senhora da Penha
invocação da dita igreja. Na primeira canoa me embarquei e só na segunda os
dois missionários na terceira os oficiais da sala com o secretário, na quarta o
capitão com metade da companhia. Entre esta e a do tenente que marchava na
retaguarda com a outra metade, iam no de carga que eram dezesseis, pertences a
El-rei e quatro a mim. Ao desamarrar salvaram outra vez os dragões a Nossa
Senhora com três descargas, e marcharam as canoas na ordem que tenho dito,
levando todas as bandeiras á popa com as armas reais. A que ia na canoa da
missão, as levava só de uma parte, e da outra o padre Anchieta."
2) Teotônio José Juzarte
Dezoito anos
depois, muito mais expressivamente, Teotônio José Juzarte, largando para o
Iguatemi, assim descrevia a partida: " Juntos os povoadores, preparadas as
embarcações, e carregadas com tudo o necessário a embarcar a gente tanto da
marcação como os passageiros; e as embarcações se põem todas em fileiras presas
ao porto da dita Araritaguaba. Estando tudo em ordem e prontos para largar, e
seguir sua viagem; a este tempo todas as pessoas estão confessadas e
sacramentadas, porque daqui para baixo não há mais igrejas, nem sacramentos.
Estando tudo na forma dada se da aviso ao pároco para vir benzer esta
expedição; o qual tomando a sua estola, a sobrepeliz com seu sacristão se põem
sobre o barranco do rio e ajoelhado todos entoam a ladainha de Nossa Senhora. A
este tempo estão os homens da marcação cada um com um remo que lhe toca na mão
e cada um no seu lugar e os remos alvorados com as pás para o ar. Acabada a
ladainha benze o pároco a todas as canoas, e comitiva, e depois implorando a
Divina Clêmencia larga a capitánea dando muitas salvas de espingarda, e levando
a sua bandeira larga; depois da distancia dita de mais de 50 braças larga a
segunda na mesma forma, e assim se seguem as outras, que a pouca distância se
acham em um sertão aonde não há mais que a Divina Providência e logo se
encontra um grande perigo além dos mais que se seguem que são
inumeráveis..."
3) Hércule Florence
Hércule
Florence em 1826 também registrou a cena
"... dirigindo- nos para o porto, onde achamos o
vigário paramentado com suas vestes sacerdotais, a fim de abençoar a viagem
como é costume e rodeado de grande número de pessoas que viera assistir ao
nosso embarque. Os parentes e amigos se abraçavam, despediam-se uns dos
outros... Romperam então da cidade salvas de mosquetaria correspondidas pelos
nossos remadores e , não ao som desse alegre estampido, deixamos as
praias..."
4) Governador Rodrigo César de
Menezes
Os
historiadores procuraram de sua vez reconstruir o quadro magnifico,
inspirando-se nas crônicas do tempo, é Washington Luis dando-nos uma impressão
do que teria sido a largada bulhenta e colorida das 308 canoas da frota
comandada pelo Capitão-general Rodrigo César de Menezes.
"Ao
amanhecer do dia 16 de julho de 1.726, foi ouvida a missa na capela de
Araritaguaba, insuficiente para conter todos os aventureiros, Depois no pátio,
a multidão, imensa e contraida em religioso recolhimento, recebia de um
sacerdote a benção da viagem. Estava prestes a partida. O guia era mestre os
pilotos práticos os remadores e proeiros vigorosos.Na sua canoa protegida por
um toldo, e em cuja popa tremulava levemente a bandeira portuguesa, já Rodrigo
César estava acomodado. Salvas de mosquetes, aclamações da multidão enchiam os
ares.
Desamarra -
gritaram e num impulso vigoroso de remos, ajudado pela correnteza do rio, a
monção deslizou pelas águas do Tiete."
5 – Taunay
Taunay na "História Geral das Bandeiras
Paulistas" assim descreve a largada dos canoões no porto de Araritaguaba
junto ao paredão de grés.
"Já
então estavam todos a bordo, confessados e sacramentados, porque dai para baixo
não existem mais igrejas nem sacramentos. A barranca do rio surgiu o pároco da
freguesia de Nossa Senhora Mãe dos Homens, de estola e sobrepeliz
acompanhado do sacristão.
Ajoelhavam–se todos e irrompia a ladainha de Nossa Senhora, um pouco mais curta
que a de hoje, sem os acréscimos modernos da invocação á Rainha livre da originais
a rainha da paz. Os homens da mareação, cada qual no seu posto,
empunhavam os remos, voltando-lhes as pás para o ar. A fórmula, temo-la
conservada pelo Pe. Angelo de Siqueira, em sua precisa “Botica da Lapa” –
“Propritiare, domine, suplicationious nostris et benedic navem istam
dextra tua sancta et omnes, qui in e a vehentum fiant dionatus es benedicere
arcam Noe ambullantem in dilunio. Porrige eis domine, dexteram tuam sicut
porrexisti beato petro ambulanti supra mare. Qui vivis et regnas in soecula
soecutorum.” Ai aspergia o sacerdote a
canoa com água benta. Acabada a ladainha, benzia o pároco as canoas, suas
equipagens e passageiros. E, depois implorando a Divina Clemencia, largava a
capitanea. Ao se desfraldar a bandeira real, davam-se muitas salvas de
espingardas”...
(*) Historia do rio Tietê, de Mello Nóbrega
A história de Porto Feliz, um capitulo importante da história brasileira
A história de Porto Feliz, um capitulo importante da
história brasileira (*)
Nossa cidade escreveu um dos capítulos mais fascinantes e
importantes da História do Brasil no
século 18. Nosso porto de Araritaguaba, deixou na história brasileira um
verdadeiro marco que ficou conhecido com o nome de Monções.
Monções, palavra de origem árabe, eram ventos alternados,
que propiciavam a navegação à Índia e, na época colonial do Brasil, passou a
referir-se às expedições fluviais do século 18, comerciais e povoadoras, que
partiam do nosso porto de Araritaguaba. “O termo designava a navegação fluvial
para o oeste, realizada pelos paulistas durante o século XVIII. Essa jornada
empregava remos: necessitava de força física e não eólica. No entanto, Sérgio
Buarque de Holanda destacou a existência de traços semelhantes entre as viagens
oceânicas portuguesas a as fluviais dos paulistas: regularidade, periodicidade
e duração. Todos os anos, nos meses de março a abril, as viagens para o Oriente
coincidiam com as jornadas paulistas para Cuiabá, aproveitando as cheias dos
rios e a facilidade de navegação. O trajeto entre Porto Feliz a Cuiabá consumia
cerca de cinco meses, mesmo tempo da rota entre Portugal à Índia. As monções ocupam importante capítulo da
história colonial, marcando a ampliação das fronteiras e a colonização do
interior, constituindo um prolongamento das bandeiras paulistas. As primeiras
monções para Cuiabá empregavam o mesmo contingente humano das bandeiras do
século XVII, mas se iniciaram quando o bandeirantismo entrava em declínio.
Sérgio Buarque destacou que as longas jornadas fluviais modificaram algumas
características das bandeiras, diversificando os meios de locomoção a exigindo
nova postura dos componentes. Se para os bandeirantes os rios eram obstáculos à
marcha, nas monções eram a principal artéria de deslocamento, razão pela qual
as técnicas fluviais alcançaram grande desenvolvimento entre os paulistas. Para
tornar a jornada menos perigosa, formaram-se comboios que substituíram as
unidades isoladas. Nos primeiros anos, muitos morreram nas monções por ataques
indígenas, naufrágios e fome. Para que os navegantes, suprimentos e mercadorias
fossem protegidos contra as intempéries do clima, as embarcações ganharam
toldos de lona, brim ou baeta, sustentados por armação de madeira, e tornou-se
recorrente o use de mosquiteiros. As técnicas de navegação se basearam nas
tradições indígenas, mas eram empregadas toras maciças na construção de canoas,
em vez de cascas de árvores, para torná-las mais resistentes e duradouras.
Possuíam cerca de 13 metros de comprimento, contando com seis remeiros, piloto
e proeiro, sendo as cargas dispostas no centro da embarcação. Com a descoberta
de veios auríferos, intensificou-se o comércio na região. As frotas, então,
reuniam por vezes 300 ou 400 canoas, que transportavam desde sal até artigos de
luxo, como sedas, de modo que as monções se tornaram essenciais para o
abastecimento das minas nos primeiros tempos, rivalizando em importância com o
abastecimento terrestre à base de tropas de mulas e contribuindo para a
formação de circuitos internos na economia colonial”, escreve Ronaldo Vainfas
no Dicionário do Brasil Colonial.
Cesário Mota Júnior, portofelicense foi o primeiro a
escrever a história do Rio Tietê e das Monções, publicando uma série de artigos no jornal de Piracicaba – A Gazeta
. Posteriormente , esses artigos foram reunidos no livro ‘‘Porto Feliz e as
Monções para Cuiabá”. Já no cargo
de Secretário de Estado dos Negócios do
Interior, Cesário Mota sugeriu ao pintor Almeida Júnior a pintura de um quadro
sobre as Monções. Daí, nascendo o famoso quadro “Partida da Monção”.
Muitos livros foram escritos sobre a navegação monçoeira
pelo rio Tiête, os dois livros mais conhecidos são: Relatos Monçõeiros,
organizado por Taunay e “Monções”,
escrito pelo famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda.
Porto Feliz faz parte importante da história de nosso país.
Somos a “ Terra das Monções “ e uma das “Fonte Histórica” desta grande nação...
Isso devemos preservar.
(*) Jonas Soares de Souza – Tribuna das Monções – outubro
2000
A Imprensa em Porto Feliz – Os primeiros jornais
A Imprensa em Porto Feliz
– Os primeiros jornais (*)
Cabe a Paschoalino
Verdi a gloria da fundação do primeiro jornal em Porto Feliz.
Lutando com serias
difficuldades, enfrentando sobranceiro a persitente guerra que lhe era movida
por parte do municipio tributario, conseguiu elle levar a realidade o seu
planejado ideal; e a 18 de Outubro de 1.906, era lançado
aos quatro ventos da publicidade o Araritaguaba, orgam de
interesse popular, com um programa excellente, bastante promissor, e redigido
proficientemente pela penna adamantina do saudoso Josino de Moura, que foi,
incontestavelmente, a gloria do jornalismo porto-felicense.
Esse jornal, no seu
primeiro anno de existencia adquiriu geral sympathia, ja pela sua orientação
adeantada, já pelo seu brilhante sequito de collaboradores, como: João
Vieira de Almeida, Othoniel Motta, Josino da Motta, Fernando Motta, Joaquim de
Paula, etc.
Mais tarde passou a
sua redação aos srs. dr Aquilino do Amaral Filho e Pedro Motta,
que imprimiram no Araritaguaba, um caracter eminentemente político que bastante
contribuiu para a sua completa decadencia e finalmente no seu periodo de
agonia, teve como redactor o rabiscador destas chronicas.
Em Agosto de 1.907 veio a luz o jornal mignon,
O Foguete do qual era redactor o sr dr Aquilino do
Amaral.
Folha critica e de
feição genuinamente política, teve curta duração.
Em Fevereiro de
1.908, começou a ser estampado o Porto Feliz sob a orientação
do sr Djalma de Arruda, e orgam da política situacionista;e nessa
mesma epocha, apparecia outro paladino, A Reação orgam
como aquele de caracter político, de opposição ao partido ainda hoje dominante.
Durante longo
tempo, estes dois periodicos trocaram armas na liça da discussão; e em novembro
daquele anno, finalmente, o Porto Feliz cedeu terreno ao adversário
desapparecendo nas trevas do esquecimento.
Outros jornaes
tambem foram publicados nesta cidade, porem tiveram pouca vida como:
O Demente,
A Mosca, O Brejeiro, A Perola, A Folha, etc.
(*) Almanach de Porto Feliz – 1909 - Paschoalino Verdi e B.
Ferraz Gomide
A primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo
A primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo(*)
A primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo foi fundada
em Porto Feliz, a 19 de agosto de 1.831, quando o país vivia um clima de
transição política gerado pela abdicação do Imperador Pedro I, ocorrida a 7 de
abril do mesmo ano. A história registra que depois da abdicação de D. Pedro I a
maçonaria brasileira intensificou sua luta,
e organizou-se da melhor forma possível, tendo instalado no Rio de
Janeiro o Grande Oriente Nacional Brasileiro, que elegeu como Grão Mestre o
Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva.
Naquela ocasião o Grande Oriente Nacional Brasileiro enviou
emissários para as Províncias, com
poderes de instalar Lojas Maçônicas e, nessa oportunidade vieram a Porto Feliz
os plenipotenciários João Batista Lobo de Oliveira, que era Oficial do
Exército, e Luiz Luciano Pinto, que era negociante. Chegando à velha Araritaguaba aqueles emissários maçônicos iniciaram nos
augustos mistérios o Comerciante João Gaudie Lei, para que pudessem compor o
quadro inicial da Loja, cujos trabalhos seriam desenvolvidos no rito oficial do
Grande Oriente Brasileiro.
O ilustre historiador maçônico Kurt Prober nos conta que no
exercício de 1.832, da era vulgar, o quadro de obreiros da primeira Loja
Maçônica do Estado de São Paulo, fundada em Porto Feliz no dia 19 de agosto de
1.831, era o seguinte:
João Batista Lobo de Oliveira - “Trajano”
Luiz Luciano Pinto - “Bruce”
João Gaudie Lei - “Voltaire”
José Gomes da Silva - “Catão D’Utica”
José Rodrigues Leite - “Jeferson”
José Pinto Miguez - “Pelópidas”
Joaquim Correa Leite - “Franklin”
Manoel Foz Teixeira - “Rousseau”
Mathias Teixeira D’Almeida - “Aristides”
Manoel Inácio de Faria - “Epaminondas”
Luiz Antonio da Fonseca - “Pinho”
José Maria de Nolasco - “Sólon”
José Custódio de Almeida - “Cincinato”
Antonio Vaz de Almeida - “Tito”
Francisco Antonio de Moraes - “Platão”
José de Tolledo Piza - “Warington”
José Maria de Souza - “Ganganelli”
Manoel Alves de Almeida - “Sertório”
Manoel José Mesquita - “Cézar”
Tristão de Abreu Rangel - “Eneas”
José Manoel de Foz - “?”
?????????????????? - “Sipião”
De acordo com os estudos realizados pelo historiador Brasil
Bandecchi, doutor em história pela Universidade de São Paulo, o Padre Diogo
Antonio Feijó (Regente Feijó), foi iniciado na maçonaria, pela Loja
Inteligência de Porto Feliz, no ano de 1.831, quando deixou o Ministério da
Justiça e veio para a Província de São Paulo, onde permaneceu até maio de
1.833.
Como a primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo, a
Inteligência de Araritaguaba prestou relevantes serviços à maçonaria
brasileira.
(*) Texto elaborado pelo advogado Dr. Reinaldo Crocco Júnior
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