segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Porto Feliz : O Engenho Central



Porto Feliz : O Engenho Central(*)
(subsídios para o estudo dos Engenhos Centrais do Brasil no século XIX)
           
A desarticulação da produção açucareira nas Antilhas, em fins do século XVIII, favoreceu a revalorização do açúcar brasileiro. Com a alta de preços e a ampliação dos mercados mundiais, incentivou-se a produção no Brasil e o renascimento dos engenhos corresponde ao soerguimento da economia paulista.
"A agricultura desenvolveu-se, a produção aumentou em todos os setores, principalmente no açucareiro. São Paulo encontrou definitivamente seu modo de vida na agricultura. A agricultura será responsável pelo aumento da população e pelo acúmulo de capitais que permitirão, primeiro, o aparecimento de grandes engenhos, depois, de grandes fazendas de café" (1).
            Na área central da capitania, no quadrilátero formado por Mogi Guaçú, Jundiaí, Porto Feliz e Piracicaba (2) estava concentrada a maior parte da cultura de cana-de-açúcar e da indústria canavieira (3).
Ultrapassada a fase de "gestação da economia cafeeira" no Vale do Paraíba (4) a nova cultura avança para o chamado Velho Oeste Paulista. Campinas, um dos maiores produtores de açúcar na área do quadrilátero, que chegou em 1.836 a ter 93 engenhos com uma produção de 158.447 arrôbas de açúcar (5), no início da segunda metade do século XIX (1.854) tem seu número de engenhos reduzido para 44, produzindo 62.290 arrôbas, enquanto cresce o número de fazendas de café para 177 com uma produção de 335.550 arrôbas (6).
Em Porto Feliz, a lavoura da cana-de-açúcar "pode ser considerada (1.854): 60 fazendas de café, com uma produção de 16.702 arrôbas, para 164 engenhos, com uma produção de 159.070 arrôbas de açúcar (7). Em Porto Feliz, a lavoura da cana-de açúcar "pode ser considerada uma expansão da ituana. Gente de Itu, à procura de novas terras, levaram o interesse pela lavoura canavieira à antiga Araritaguaba induzindo, inclusive, os primitivos moradores a plantar cana" (8).
Em 1.798 havia 40 engenhos produzindo 23.280 arrôbas de açúcar, e no ano seguinte 46 engenhos com a produção de 30.672 arrôbas (9). "Ao findar o período colonial, a antiga freguezia de Ararytaguaba, juntamente com Itú e Campinas, movia os cordéis da produção açucareira na Capitania. Em 1.822 a sua produção era de 98.253 arrôbas, emparelhando com Itú e somente ultrapassada por Campinas. Era zona das mais povoadas, com escravaria apenas ligeiramente inferior a de Campinas e Itú" (10).
Mesmo levando-se em conta a separação de Piracicaba (1.823), notamos uma elevação no número de engenhos. Em 1.836 um número de 76 engenhos produziam 73.113 arrôbas de açúcar (11).
A partir de então, a atividade canavieira enfrenta uma sensível queda, apesar de continuar como a principal atividade econômica, apresentando em 1.854 a quantidade de 38 engenhos com uma produção de 43.310 arrôbas, e isto sem a interferência muito acentuada da atividade cafeeira, cuja produção é, na mesma época, de 6.350 arrôbas em apenas 16 fazendas de café (12).

Século XIX


A região do quadrilátero continua, em meados do século XIX, como a maior produtora de açúcar da província de São Paulo. Alguns melhoramentos técnicos são introduzidos na década de 1.860. O viajante Tschuddi, dirigindo-se de Piracicaba para Capivari, ao passar pela fazenda do Marquês de Monte Alegre, dedicada ao cultivo da cana-de-açúcar, atesta a utilização do arado: "menciono esta particularidade porque este instrumento agrícola é quase desconhecido em toda a Província, embora a configuração do terreno se preste muito bem a seu uso" (13).
Com o propósito de animar e desenvolver a indústria açucareira no Brasil, em 6 de novembro de 1.875 foi promulgada a Lei Geral n.o 2.687, cujo artigo 2º autorizava o Governo a garantir juros de 7% ao ano, até o capital realizado de 30.000:000$000 (trinta mil contos), às Companhias que estabelecessem engenhos centrais "para fabricar assúcar de cana, mediante o emprego de apparelhos e processos modernos os mais aperfeiçoados" (14).
De acordo com o parágrafo primeiro do referido artigo, as preferências recaiam sobre aquelas companhias que já tivessem celebrado ajustes para o mesmo fim com as administrações provinciais, e que se achassem associadas aos proprietários agrícolas da região onde se pretendesse instalar o Engenho Central, assegurando com esta providência o fornecimento de cana-de-açúcar na quantidade necessária, e a revitalização das propriedades dedicadas ao seu cultivo.
Em 12 de setembro de 1.877 foi inaugurado o Engenho Central de Quiçamã, por iniciativa do Barão de Araruama, o primeiro a ser fundado no Brasil, no município de Macaé - Rio de Janeiro.
Em 1.883 o presidente da província de São Paulo, Conselheiro Francisco de Carvalho Soares Brandão, na fala dirigida a Assembléia Legislativa Provincial, comentava:
"Esta provincia, que foi talvez o berço da lavoura de canna no Brazil, não podia ficar estacionaria ante os beneficios que se propoz espalhar a Lei Geral n. 2.687, de 6 de Novembro de 1.875, com o patriotico empenho de animar e desenvolver a industria assucareira.
Esta industria que já teve na provincia sua phase de prosperidade notavel, mas que ha muito quasi totalmente abandonada pela lavoura de algodão, tambem substituída mais tarde pela do café, tende actualmente á desenvolver-se, graças ao espirito emprehendedor dos paulistas, auxiliado pela Lei referida.
Hoje que a grande baixa do principal producto de exportação da Provincia veio mostrar de modo irrefragavel que não deve ella confiar o seu futuro economico de um unico genero de produção e exportação, é-me grato registrar que a introducção e desenvolvimento dos engenhos Centraes na provincia promette ser um auxiliar poderoso, mantendo a receita provincial, chamando os pequenos lavradores á participação de lucros certos e attrahindo á lavoura maior numero de individuos" (15).
Das cinco concessões de garantia de juros aos Engenhos Centrais a serem estabelecidos na província de São Paulo, quatro se concentraram na antiga região do "quadrilátero do açúcar" (16).
A primeira concessão, sabre um capital de 600:000$000 (seiscentos contos) foi dado para a sociedade organizada por Joaquim Travassos, que tinha por objetivo a construção de um Engenho Central no Município de Capivari. Esta concessão foi prorrogada em 1.877 e declarada caduca em 1.881. Neste ano, por um Decreto de 28 de maio, foi concedida a quinta garantia de juros para a Província de São Paulo, sobre um capital de 500:000$000, para um Engenho Central a ser construído no mesmo Município. Em agosto de 1.882 foi organizada em Londres a "The São Paulo Central Sugar Factory of Brazil Limited", com um capital de 80.250 libras, para a produção de açúcar também em Capivari(17).
A terceira concessão de juros, sobre um capital de 400:000$000 (quatrocentos contos de réis) depois ampliado para 500 contas de réis, foi para a Engenho Central a ser construído em Piracicaba. A quarta, sobre um capital de 500:000$000 (quinhentas contos de réis), foi para o Engenho Central de Lorena, na Vale do Paraíba, portanto, fora da região do quadrilátero.
A concessão de garantia de juros de 7% ao ano sobre um capital de 300:000$00 (trezentos contos de réis), depois ampliado para 400:000$000, através do Decreto n.o 6.355 de 11 de outubro de 1876, a segunda da província, foi dada para a Companhia Assucareira de Porto Feliz (18).

O inicio do Engenho


No início de 1.876 foram realizados os primeiros preparativos para a organização de uma sociedade congregando os proprietários da região e liderada pelo Dr. Joaquim Travassos e pelo Desembargador Avelino Gavião Peixoto, para a construção do Engenho Central de Porto Feliz, aproveitando-se dos benefícios da Lei Geral nº 2.687 e objetivando o desenvolvimento da cultura da cana-de-açúcar no Município.
Em 20 de agosto de 1.876, os diretores provisórios da Companhia passaram procuração ao Dr. Cesário Mariano de Azevedo Magalhães, para a realização de contrato de fornecimento de máquinas (19). O moderno maquinismo foi adquirido da casa francesa especializada Brissonneau Frêres & Cie. de Nantes, por 495.040 francos, aproximadamente 198:000$000 (cento e noventa e oitocentos de reis).
Em dezembro do mesmo ano foi realizada a compra de parte de uma chácara, propriedade de Manoel Augusto das Chagas, pela quantia de 1.800$000 (um conto e oitocentos mil réis) (20), na margem esquerda do Rio Tietê, onde foi construído, a dez metros do nível do rio, um grande edifício e dependências que apresentavam a forma de uma cruz, ocupando uma área de 1.772 metros quadrados. A sólida chaminé de tijolos possuía 27 metros de altura.
A cláusula IX do Decreto, que estabelecia que a Companhia seria ligada através de tram-way com as propriedades agrícolas e com a estação mais próxima da Estrada de Ferro Sorocabana, foi substituída, pelo Decreto n.o 6.598 de 27 de junho de 1877, por outra que
permitia a utilização da navegação do Tietê, para a ligação das propriedades agrícolas com o Engenho Central e deste com a estação mais próxima da Estrada de Ferro Ytuana, transportando a cana-de-açúcar e produtos através de pranchas rebocadas a vapor. Grande parte da cana-de-açúcar necessária para alimentar o Engenho Central somente poderia ser transportada pelo Rio Tietê, pois as propriedades ribeirinhas estavam em condições de fornecer mais de 50% da produção do município (21). A existência de corredeiras e pequenas cachoeiras dificultava a passagem do Vapor, o que levou a Assembléia Provincial conceder a verba de 10:000$000 (dez contos de réis) para a desobstrução do trecho entre Porto Feliz e Salto de Itú, verba insuficiente em relação a dimensão do problema a espera de solução.
Ao lado das edificações foi construído o cais de desembarque e sobre este a plataforma dos guindastes a vapor, munidos de relógios dinamométricos para a pesagem das canas, com 2.000 kilos de capacidade. As canas eram transportadas dos guindastes para as moendas por intermédio de pequenos tram-ways. A cana-de-açúcar que chegava por terra era pesada em balanças especiais com capacidade para 5.000 kilos. Os instrumentos destilatórios eram do sistema Egrot. O Engenho tinha capacidade para moer 125.000 kilos de cana e para produzir 7.500 kilos de açúcar diariamente, além de aguardente fabricada com resíduos de melaços. Uma correia transportava a cana para as moendas de três cilindros, movidas por uma máquina de 25 cavalos. Depois de receber o ácido sulfuroso para a sua clarificação, o caldo era conduzido através de poderosas bombas para os grandes tanques, de onde passavam para as caldeiras com capacidade para 1.500 litros e dali para dois decantadores contínuos, dispostos de tal forma que, ocupando pequeno espaço, obrigavam o caldo percorrer uma extensão de 37,50 metros. Após a ação da cal, bombas a vapor levavam o caldo para três caldeiras de clarificação, onde era submetido a ebulição, para torná-lo mais puro. Depois, um ascensor conduzia o caldo para o evaporador de tríplice efeito, que elevava o grau sacarino de 8.º ou 9.º para 25.º  Baumé. Após o necessário repouso, o caldo passava para duas caldeiras de coser que o deixavam em ponto de ir para as resfriadeiras. Um moinho dividia as massas que eram conduzidas por um caminho de ferro aéreo até seis turbinas movidas por duas máquinas de 10 cavalos. O mel voltava várias vezes aos aparelhos para diferentes produtos. Existiam também aparelhos para a produção de ácido sulfúrico clarificador, bombas auxiliares, cisternas, reservatórios para aguardente, diversos tanques, e aparelhos tubulares com 100 m2 de superfície de aquecimento ou força de 70 cavalos (22).

O primeiro no Estado de São Paulo


O Decreto n.o 6.352 de 11 de outubro de 1.876 autorizou o funcionamento e aprovou com modificações os Estatutos da Companhia Assucareira de Porto Feliz. O seu Engenho Central foi o primeiro a ser construído na Província de São Paulo.
As dificuldades efetivaram-se logo de início, pois a instalação do estabelecimento custou cerca de 460:000$000 (quatrocentos e sessenta contos de réis), e não sendo possível a emissão total das ações (23) recorreu-se a operações de crédito que falharam, "...pela natural desconfiança que sempre inspiram as emprezas nascentes em nosso paiz, ou seja por ser esta sem exemplo na Província..." (24). Em 1.883 o Conselheiro Francisco de Carvalho Soares Brandão afirmava perante a Assembléia Legislativa Provincial:
"O Engenho Central de Porto Feliz, como quase toda a empresa iniciadora, não podia deixar de pagar seu tributo á inexperiencia, em consequencia da qual sérias dificuldades
ameaçaram a vida da Companhia, que foi sustentada pelo patriotismo e abnegação de seus acionistas" (25).
Além disso, não sendo cumprido o primeiro ítem da III cláusula do contrato com o Governo Imperial, segundo a qual haveria isenção de direitos de importação sobre máquinas, instrumentos, trilhos e outros materiais destinados ao serviço da fábrica, desde que a Companhia apresentasse ao Tesouro Nacional ou na Tesouraria da Fazenda da Província de São Paulo a relação de tal material, a Companhia ficou obrigada ao pagamento de direitos elevados antes da retirada das máquinas, remetidas pela Brissonneau Frêres, da alfândega de Santos.

Inauguração: 28 de outubro de 1.878


Engenho Central de Piracicaba.
O segundo ítem da cláusula III do DecretApesar das dificuldades, o Engenho Central foi inaugurado em 28 de outubro de 1.878. O Presidente da Província, Dr. João Baptista Pereira, afirmava em relatório, ao passar a administração ao Vice-Presidente Barão de Três Rios:
"Não se pode duvidar que mais um grande commettimento veio assignalar o progresso industrial da Província e que para a lavoura da canna tão desalentada, surgiu uma era de esperanças, que o zelo da Directoria da Companhia e o patriotismo dos poderes públicos não devem consentir que se mallogrem" (26).
Em virtude da falta de conhecimentos técnicos da maioria dos empregados, a Companhia realizou um contrato com o Engenheiro André Paturau, representante da Brissonneau Frêres e autor de um novo processo e aparelho para a fabricação do açúcar (que foram
utilizados no Engenho Central de Porto Feliz) (27) e com Fernand Dumolin, ambos também responsáveis pelas obras do o 6.355, que concedia a garantia de juros para o Engenho Central de Porto Feliz, reservava preferência à Companhia Assucareira na aquisição de terrenos devolutos existentes no município, efetuando-se pelos preços mínimos da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1.850 (28), para distribui-los entre imigrantes por ela importados e estabelecidos, não podendo vende-los, medidos e demarcados, por preço superior ao autorizado pelo Governo. Estes imigrantes deveriam dedicar-se ao cultivo da cana-de-açúcar. Para resolver o problema de fornecimento da matéria prima e de mão-de-obra, facilitava, portanto, o decreto a introdução de imigrantes que seriam fixados no município pelo regime da pequena propriedade fundiária. O novo proprietário não encontrava dificuldades na formação da lavoura, pois o decreto também determinava que 10% do capital garantido pelo Estado deveria ser destinado a formação de um fundo especial para assegurar empréstimos a prazos convencionais e juros de até 8% ao ano aos plantadores e fornecedores de cana, como adiantamento pelos gastos de produção (29).
Outra cláusula proibia terminantemente a utilização do trabalho escravo dentro do Engenho Central, agindo no sentido de forçar a companhia a favorecer a imigração, caso verificasse dificuldades na utilização do trabalhador livre nacional (30).

Mais de 100 trabalhadores livres


Em 1.882 as despesas com salários mensais atingiam a soma de 13:058$144 (31) e em 1.883 o volume de mão-de-obra empregado variava entre 95 a 100 pessoas todas livres (32).
O relatório do Gerente Luiz Antônio de Carvalho aos acionistas, em dezembro de 1.882, afirmava que "graças ao zelo e boa vontade do engenheiro da Companhia, Dr. Antonio de Toledo Piza, conseguiu-se grande redução no preço do trabalho diário do Engenho durante a safra". O serviço realizado por empregados que recebiam 1$500 de jornal, foi substituído pelo serviço desempenhado por meninos cujo jornal não excedia 1$000 (33).
Os salários mensais, em Porto Feliz, variavam entre 16 a 20 mil réis, e os jornaleiros recebiam entre 1$280 e 1$500, no campo, e 1$200 a 2$000 diários no Engenho (34).
Em 1.884, numa Receita de 199:389$372 réis, as despesas com salários somavam 29:607$184 réis (35). Pelo Artigo 24º dos Estatutos da Companhia, a gerência receberia 6.000$000 (seis contos de réis) anualmente, deduzidos da renda bruta da empresa (36). O administrador das obras percebia 200$000 (duzentos mil réis) e o guarda-livros 100$000 (cem mil réis) mensais (37).
A Companhia, porém, lutava pela sobrevivência. Avolumaram-se as dificuldades financeiras, surgiram dissenções no seio da sociedade, as garantias de juros por parte do Governo Imperial não se efetivaram (38). "Era manifesta a insolvabilidade da Companhia nessa occasião" – 1.880 (39). Já no início, em 1.878 surgiram problemas, pois, as despesas da Companhia excediam a mais de 1/3 do capital social, do qual foram realizados somente 200:000$000. Para cobrir as despesas de construção alguns acionistas e a Diretoria levantaram capitais sob suas responsabilidades pessoais (40). Para a consolidação da dívida flutuante, que onerava a Companhia com juros exagerados, foram contraídos empréstimos a longo prazo com juros módicos; para pagamento destes juros, contraíram-se outros empréstimos pagáveis a curto prazo com juros altos acumulados anualmente. Durante o período de 1.880-1.884, o produto líquido das safras atingiu a soma de 131 :121$712 (cento e trinta e um contos, cento e vinte e um mil setecentos e doze réis), enquanto no período entre 1.881-1.884 foram pagos 171:808$111 (cento e setenta e um contos, oitocentos e oito mil cento e onze réis): "O pagamento desses juros é o que mais tem onerado a Companhia, não podendo os saldos de lucros, em todos os annos, corresponder áquelles pagamentos" (41).
Em 1.884 foram gastos 105:988$442 reis na compra da cana-de-açúcar, e a produção de açúcar e aguardente rendeu apenas 199:389$372 reis. Os diretores explicaram em relatório aos acionistas que a safra daquele ano não produzira o fabrico correspondente em virtude das fortes geadas que castigaram as canas "as quaes não podiam desenvolver a materia saccharina". Além disso, as vendas foram desfavoráveis, sendo uma parte do açúcar vendido pelo preço de 5$000 por arrôba, enquanto outro lote era vendido por 4$500, e nove mil arrôbas vendidas a 3$750 por arrôba. O produto líquido das safras foi de apenas 34:621$196 rs. (42).
Apesar do crescimento das plantações e do aumento das compras do Engenho (43), ao lado dos problemas financeiros surgiram problemas quanto ao fornecimento da cana-de-açúcar. Em Assembléia Geral ficou deliberada uma reunião com os plantadores para o dia 10 de maio de 1.882, na qual seriam tratados problemas ligados a quantidades de fornecimento e preços da cana-de-açúcar. Os plantadores não atenderam a convocação e a diretoria da Companhia resolveu fixar o preço em 14$000 por 1.500 kilos, com redução das despesas de transporte pelo Rio Tietê, determinando também o preço do açúcar que seria remetido aos fornecedores em pagamento ao fornecimento (44). "Em um e outro caso esqueceu-se a Diretoria que a compra e venda é um contracto synallagmático, cujas condi ções não podem sem violencia ser determinadas e impostas por uma das partes á outra" (45). Muitos lavradores mantiveram sua relutância na continuidade do fornecimento.
Em meio as grandes dificuldades, uma série de melhoramentos foram introduzidos durante o ano de 1.882. Foi montada uma serra a vapor para o corte de lenha, trabalho antes realizado por um grupo de quinze homens ganhando cada um 1$500 reis diários e que com o novo aparelho era desempenhado por dois homens, trazendo uma economia diária de 18$000 a 22$000 reis. O Engenheiro André Paturau montou uma nova caldeira a vapor, que para ser transportada de Santos até o Engenho Central gastou de frete 1:293$780 reis, e iniciaram-se os trabalhos de construção de novos depósitos para aguardente e melaço (46).
Diante das providências tomadas por alguns acionistas e credores para a liquidação judicial, a Diretoria da Companhia aconselhava o arrendamento do Engenho Central, pois "feito o arrendamento com critério e reflexão a Companhia pagará, embora com alguma demora, o seu passivo, lucrará os melhoramentos introduzidos no Engenho, as ações, terão valor real, o Município não deixará de tirar o proveito que lhe advém da venda das cannas, e a pequena lavoura não perecerá", enquanto a liquidação judicial acarretaria um verdadeiro desastre, pois, "além da perda total das cannas plantadas, que trará á pequena lavoura irremediável prejuízo, a incerteza em que esta ficara durante o processo da liquidação, que tem seus tramites, impedirá novas plantações. Neste caso, ao lado da falta que faria ao Municipio a venda das cannas existentes, os lavradores menos favorecidos da fortuna perderiam os meios de continuar na lavoura, e ter-se-hia de lamentar, durante 4 ou mais annos, as consequencias certas de tão grande mal" (47).

1.885 : crise, arrendamento e nova sociedade


Em 5 de fevereiro de 1.885 o Engenho Central foi arrendado ao Engenheiro André Paturau (48), que no ano seguinte rescindia o contrato alegando grandes prejuízos em virtude das fortes geadas que danificaram a maior parte dos canaviais. O assoberbamento dos débitos determinou a insolvabilidade da Companhia e "depois de 10 annos de uma luta heróica contra multiplos elementos, que impediam a sua prosperidade" (49) foi decretada a sua liquidação forçada em abril de 1887 (50).
Uma nova sociedade anônima foi organizada com sede no Rio de Janeiro, e autorizada a funcionar pelo Decreto nº 9.910 de 24 de março de 1.888, recebendo por adjudicação o Engenho Central e assumindo todos os direitos e obrigações da Companhia Assucareira de Porto Feliz (51). O mesmo Decreto designava três acionistas para a nova Diretoria, entre os quais o Engenheiro André Paturau, demitido depois pela Assembléia Geral dos Acionistas de 3 de outubro de 1.888, sendo substituído por Ricardo Creagh, que encontrou ferrenha resistência, por parte daquele, na entrega do estabelecimento.
Para assegurar o fornecimento, a nova proprietária do Engenho Central, a Companhia Engenho Central Paulista, realizou uma série de contratos com plantadores de cana-de-açúcar da região. Ainda em proveito do Engenho Central, em 1.887 foi organizado o núcleo colonial "Rodrigo Silva", tendo o Governo Imperial adquirido em Porto Feliz 1.601 hectares de terras, que foram divididos em lotes de 25 a 30 hectares e vendidos a algumas dezenas de famílias belgas, introduzidas no Brasil no início de 1.888, por intermédio de um contrato realizado com o abade Jean Baptiste Van Esse (52).
Os problemas financeiros continuavam sem solução, pois, já em 1.890 a Companhia Engenho Central Paulista contraía empréstimo de 120:000$000 no Banco de Crédito Real do Brasil, hipotecando o terreno, edifícios e máquinas, no valor de 240:000$000 (53).
Alguns anos depois, o estabelecimento foi absorvido por uma companhia francesa, a Société de Sucréries Brésiliennes, e que possuia um capital de sete milhões de francos e cinco outros engenhos centrais: Piracicaba, Vila Raffard (Capivarí) e Lorena, no Estado de
São Paulo; e as Usinas de Cupim e Paraíso, em Campos, no Estado do Rio de Janeiro (54).

Conclusão


Para os síndicos, "...as cauzas que determinaram a liquidação forçada da Companhia foram, remotamente, o facto de não ter sido possível emittir-se todo o capital, e immediatamente a má administração dos negócios..." (55). Escapava-lhes a conjuntura desfavorável. Na década de 1.870, quando foi promulgada a Lei Geral nº  2.687 prometendo garantia de juros aos engenhos Centrais e inaugurado o Engenho Central de Porto Feliz, o açúcar participava com apenas 11,8% no total dos produtos exportados pelo Brasil.
O açúcar brasileiro, favorecido pela conjuntura do final do século XVIII, quando se verificou o renascimento dos engenhos paulistas, a partir da segunda década do século XIX entra numa fase de recessão que tem suas origens na baixa dos preços e no aumento da concorrência nos mercados internacionais. O Brasil enfrenta a concorrência do novo grande produtor, Cuba, e do açúcar de beterraba, que em 1.860 estará suprindo 25% do consumo mundial; em 1.882 - 50% e em 1.900, 75%. O açúcar, que na década de 1.820 era o principal produto de exportação com 30,1% do total exportado, já na década de 1.830 é sobrepujado pelo café que exporta 43,8%, aparecendo em segundo lugar com 24%. A partir de então, a economia brasileira volta-se quase que totalmente para a monocultura cafeeira e a exportação do açúcar vai diminuindo gradativamente: 1.841/1.850: 26,7%; 1.851/1.860: 21,2%; 1.861/1.870: 18,3%; 1.871/1.880: 11,8% e em 1.881/1.890: 9,9% do total dos produtos exportados (56).
Soma-se à violenta retração na exportação do produto brasileiro a fase de desorganização interna devido o desenvolvimento da incompatibilidade da coexistência da produção mercantilizada com o regime escravista e a conseqüente substituição das relações de produção escravistas pelas relações de produção baseadas em mão-de-obra assalariada.
As dificuldades na emissão total das ações da Companhia, no levantamento de empréstimos e no pagamento dos débitos contraídos, na efetivação de contratos com fornecedores de cana-de-açúcar, enfim, o fracasso do empreendimento que utilizava do mais moderno processo e maquinismo na fabricação do açúcar e de seus congêneres da região, só pode ser totalmente explicado levando-se em conta este contexto conjuntural.

(*) Jonas Soares de Souza – Anais do Museu Paulista Tomo XXV – 1971/1974 - USP

(1) Petrone, Maria Thereza Schorer - "A Lavoura Canavieira em São Paulo, Expansão e Declínio (1765-1851)". São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1938. Pág. 21 (Coleção Corpo e Alma do Brasil).
(2) Prado Júnior, Caio - "Formação do Brasil Contemporâneo (Colônia)", 7.a Ed. São Paulo, Editora Brasiliense, 1933, pág. 75. - Maria Thereza Schorer Petrone prefere Sorocaba a Porto Feliz "como um dos pontos formadores do quadrilátero, pois em Sorocaba o cultivo da cana-da-açúcar ainda teve relativa importância e, porque, dessa maneira, Itú, importantíssimo centro canavieiro e outras áreas produtoras de açúcar ficam decididamente enquadradas". Op. cit., pág. 24 nota 1.
(3) Consultar: Petrone, Maria Thereza Schorer, op. cit.; Lisanti Filho, Luiz
"Comércio e Capitalismo: O Brasil e a Europa entre o fim do século XVIII e o início do século XIX" (O Exemplo de três vilas paulistas: Campinas, Itu e Porto Feliz), 17981828/9. São Paulo, 1932. Tese de Doutoramento apresentada ao Departamento de História da F. F. C. L. da Universidade de São Paulo (mimeografado); e Queiroz, Suely Robles Reis de - "Algumas Notas Sobre a Lavoura do Açúcar em São Paulo no Período Colonial", "Anais do Museu Paulísta", tomo XXI, São Paulo, 1967, págs. 109-277.
(4) Furtado, Celso - "Formação Econômica do Brasil", 6.a Ed., São Paulo,
Editôra Fundo de Cultura, 1964, Capítulo XX, págs. 133-140.
 (5) Muller, Daniel Pedro - "Ensaio d'um Quadro Estatistico da Provincia de
São Paulo", São Paulo, Typographia de Costa Silveira, 1838, Tabelas 3 e 4.
(6) Oliveira, José Joaquim Machado de - "Quadro Estatistico de alguns Estabelecimentos Ruraes da Provincia de São Paulo" in "Documentos com que o Ilustrissimo e Excellentissimo Senhor Dr. José Antonio Saraiva, Presidente da Província de S. Paulo Instruio o Relatorio da Abertura da Assembléia Legislativa Provincial no dia 15 de Fevereiro de 1855", São Paulo, Typographia 2 de Dezembro, 1855, Quadro N.
(7) Oliveira, José Joaquim Machado de - op. cit., loc. cit. (8) Petrone, Maria Thereza Schorer - op. cit., pág. 49.
(9) Mendonça, Antonio Manoel de Mello Castro e - "Memória Econômico
Política da Capitania de São Paulo", "Anais do Museu Paulista", Tomo XV, São Paulo, 1961, pág. 243.
(10) Queiroz, Suely Robles Reis de - op. cit., pág. 256.
(11) Muller, Pedro Daniel - op. cit., tabelas 3 e 4.
(12) Oliveira, José Joaquim Machado de - op. cit., quadro N.
(13) Tshuddi, J. J. von - ''Viagem as Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo", São Paulo, Livraria Martins Editôra, 1953, pág. 198. (Biblioteca Histórica Paulista - V).
(14) "Colleção das Leis do Império do Brazil de 1875", Tomo XXIV, Parte I e II, vol. 1, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1876, págs. 187-191
(15) "Falia dirigida a Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo na
Abertura da 2.a Sessão da 24.a Legislatura em 10 de janeiro de 1883 pelo presidente Conselheiro Francisco de Carvalho Soares Brandão", São Paulo, Typographia do Ypiranga, 1883, pág. 71.
(16) 1. a - Decreto 6.191 de 3-5-1876, sobre um capital de seiscentos contos, para a construção de um Engenho Central no Município de Capivari. Esta concessão, prorrogada em 1877, foi declarada caduca em 1881. A 2.a, para a Companhia Assucareira de Porto Feliz. A 3. a, decreto 8.089 de 7-5-1881, sobre um capital de 400:000$000 depois ampliado para quinhentos contos, para o Engenho Central de Piracicaba. A 4.a pelo Decreto 8.098 de 21-5-1881, sobre um capital de 500:000$000, para o Engenho de Lorena, fora do quadrilâtero; e a 5.a concessão, pelo Decreto 8.123 de 28-5-1881, também para o Município de Capivarí. ("Colleção de Leis do Império do Brazil").
(17) "Falia dirigida á Assembleia Legislativa Provincial pelo Preso Francisco
            de Carvalho Soares Brandão.. . ", op. cit., pág. 74.
(18) "Colleção de Leis do Império do Brasil de 1876".
(19) "Livro de Notas do Cartório do 1.° Ofício de Porto Feliz", n.o 30, 1876,
pág. 36-38. Mss
(20) Idem, pág. 52-54.
(21) "Relatório com que o Exmo. Sr. Dr. João Baptista Pereira Presidente da
Província de S. Paulo passou a administração ao 2.o Vice-Presidente Exmo. Sr. Barão de Três Rios". Typographia a Vapor do "Diário de Santos", 1878, pág. 80.
(22) "Falia dirigida á Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente Francisco de Carvalho Soares Brandão", op. cit., pág. 72/73.
(23) Foram subscritas apenas 950 ações de 200$000 cada uma. Como os gastos atingiram a soma de 460.000$000 foi imprescindível efetuar empréstimos onerosos. Em 1880 foram emitídos 300.000$000 em debêntures de 100$000, a juros de 8 1/2% ao ano, aliviando temporariamente a situação da Companhia.
(24) "Relatório sobre as cauzas que determinaram a liquidação forçada da Companhia Assucareira de Porto Feliz". Mss. pág. 41
(25) "Falia... ", op. cit., pág. 73.
(26) "Relatório com que o Exmo. Sr. Dr. João Baptista Pereira.. . ", op. cit.,
pág. 80.
(27) O contrato foi realizado em 12/12/1879, conforme Livro de Notas n.o 33, pág. 19-20, do 1.° Ofício de Porto Feliz. O Decreto n.o 6.187 de 26/4/1876, concedia ao Dr. André Paturau o privilégio por oito anos ao aparelho e processo de sua invenção. ("Colleção das Leis do Império do Brazil de 1876").
(28) VASCONCELLOS, J. M. P. de - "Livro das Terras ou Colleção da Lei
Regulamentos e Ordens", Rio de Janeiro, H. Laemmert & COo, 1885.
 (29) "Colleção das Leis do Império do Brazil de 1876", Decreto n.o 6.355, de
11/10/1876. Cláusula XI.
 (30) Idem, idem, Cláusula XVII.
(31) "Relatório de Luiz Antônio de Carvalho aos Acionistas", 31 de Dezembro de 1882, pág. 7.
(32) "Falia o . o", op. cit., pág. 73.
(33) "Relatório de Luiz Antônio de Carvalho", pág. 8.
(34) LAERNE, C. F. van Delden - "Le Brésil Et Java. Rapport sur Ia Culture du Café €n Amérique, Asie et Afrique", préssnté a S. E. le Ministre des Colonies par. .. Haia, fv'artinus Nyhoff, 1885, pág. 123.
(35) "Relatório da Companhia Assucareira de Porto Feliz apresentado à Assembléia Geral dos Snrs. Accionistas em 20 de dezembro de 1884", São Paulo, Typographia a Vapor de Jorge Seckler & C., 1885, pág. 11.
(35) "Estatutos da Companhia Assucareira de Porto Feliz", Rio de Janeiro,
Typographia G. Leuzinger & Filhos, 1877, pág. 21.
 (37) "Relatório sobre as cauzas que determinaram a liquidação forçada da
Companhia Assucareira de Porto Feliz", Ms.
(38) De acordo com o parágrafo 1.° da XIX cláusula, o pagamento os juros garantidos seriam suspensos "se por culpa da Companhia, durante três annos concecutivos o engenho central não produzir o minimum do assucar que a companhia se produz fabricar". A cláusula VII do mesmo Decreto (6.355) estabelecia a capacidade para moer 150.000 kilos de cana e para fabricar 500.000 kilos de açúcar por ano no minimo. Em 1883 a moagem diária era de 125.000 kilos.
(39) "Relatório sobre as cauzas que determinaram...", pág. 44 verso.
(40) "Relatório com que o Exmo. Sr. Dr. João Baptista Pereira...", op. cit.,
pág. 80.
41) "Relatório da Companhia Assucareira... de dezembro de 1884", op. cit.
            pág. 5/6.
(42) Idem, pág. 4/5.
(43)Na safra de 1881 - compra de canas: 58:351$517 - 1882 " "93:851$975 - 1883 " "88:280$195 -       1884    " "105 :988$442 ,Idem, pág. 4.
(44) A cláusula X do Decreto 6.355 estabelecia: "Nos contractos celebrados com a Companhia é livre aos proprietários agricolas, plantadores e fornecedores de canna estabelecer as condições do fornecimento e sua indennisação, podendo esta ser ajustada em dinheiro pelo peso e qualidade da canna, ou em certa proporção e qualidade do assucar fabricado".
45) "Relatório sobre as cauzas... ", op. cit., pág. 47 verso.
(46) Relatório de Luiz Antônio de Carvalho aos Acionistas. . . ", op. cit., 4-5. (47) "Relatório da Companhia Assucareira de Porto Feliz de 20 de Dezembro
de 1884", op. cit., pãg. 8-9.
(48) "Livro de Notas n.o 39 - 1.° Ofício de Porto Feliz", Ms. pãg. 40.
(49) "Relatório das cauzas que determinaram... ", op. cit., pág. 51.
(50) Todos os Engenhos Centrais do "quadrilátero" enfrentaram grandes problemas e foram encerrados: Capivari, Piracicaba, The São Paulo Central Sugar Factory of BraziJ Limited. Somente o de Lorena continuou em funcionamento e recebendo os benefícios da Lei Geral 2.687.
(51) "Colleção das Leis do Imperio do Brazil de 1888".
(52) "Relatório da Comissão Central de Estatística, São Paulo", 1888.
(53) "Translado da Escripturas de Emprestimos a juros que o Banco Real do
Brasil faz a Companhia Engenho Central Paulista", 1890. Mss.
(54) BRANDÃO SOBRINHO, Júlio - "A Lavoura de Canna e a Industria Assucareira dos Estados Paulista e Fluminense". Relatório apresentado ao Secretario da Agricultura, Commercio e Obras Publicas. São Paulo, Typographia Brazil de Roths. child & Co., 1912, pág. 52.
(55) "Relatório das Cauzas que determinaram a falencia forçada da Companhia Assucareira de Porto Feliz", Mss. pág. 51.
(56) Dados computados por PINTO, Virgilio Noya, em "Ritmos da Economia e Dependência Econômica em face dos Mercados Externos", "Anais do Museu Paulista", Tomo XIX, São Paulo, 1965.

FONTES E BIBLIOGRAFIA

I - FONTES PRIMARIAS DOCUMENTOS MANUSCRITOS
"Livro de Notas do Cartório do 1.° Ofício de Porto Feliz", n.o 30, 1876. "Livro de Notas do Cartório do 1.° Ofício de Porto Feliz", n.o 33, 1879. "Livro de Notas do Cartório do 1.° Ofício de Porto Feliz", n.o 39, 1885.
"Relatório sobre as causas que determinaram a liquidação forçada da Companhia
Assucareira de Porto Feliz", Arquivo Pedro Paulo de Oliveira - Porto Feliz.
"Translado da Escriptura de Empréstimos a juros que o Banco de Crédito Real do Brasil faz a Companhia Engenho Central Paulista", Arquivo Pedro Paulo de Oliveira - Porto Feliz.

DOCUMENTOS PUBLICADOS

"Colleção das Leis do Imperio do Brazil de 1875/1885", Rio de Janeiro, Typographia
            Nacional.
"Estatutos da Companhia Assucareira de Porto Feliz", Rio de Janeiro, Typographia
            G. Leuzinger & Filhos, 1877.
"Falia dirigida á Assemblea Legislativa Provincial de São Paulo na Abertura da 2.8 Sessão da 24.a Legislatura em 10 de janeiro de 1883 pelo presidente Conselheiro Francisco de Carvalho Soares Brandão", São Paulo, Typographia
            do Ypiranga, 1883.
"Relatório da Comissão Central de Estatística", São Paulo, 1888.
"Relatório com que o Exmo. Sr. Dr. João Baptista Pereira, Presidente da Provincia
de S. Paulo passou a administração ao 2.° Vice-presidente Exmo. Sr. Barão
            de Três Rios", Typographia a Vapor do "Diário de Santos", 1878.
"Relatório de Luiz Antonio de Carvalho aos Acionistas", 31 de dezembro de 1882. s.e. "Relatório da Companhia Assucareira de Porto Feliz apresentado à Assembléia Geral
dos Snrs. Acionistas em 20 de dezembro de 1884", São Paulo, Typographia a Vapor de Jorge Seckler & C., 1885.
Vasconcellos, J.M.P. de - "Livro das Terras ou Colleção da Lei, Regulamentos e
            Ordens", Rio de Janeiro, H. Laemmert & Co., 1885.

MEMÓRIAS E DESCRIÇÕES DE VIAJANTES, CRONISTAS E INFORMANTES

LAERNE, C. F. van Delden - "Le Brésil et Java. Rapport sur Ia Culture du Café
            en Amérique, Asie et Afrique", Haia, Martinus Nyhoff, 1885.
            MENDONÇA, Antpnio Manoel de Mello Castro e - "Memória Econômico-Politica
            da Capitania de São Paulo", "Anais do Museu Paulista", Tomo XV, pp.
            81-247.
MULLER, Daniel Pedro - "Ensaio d'un Quadro Estatistico da Provincia de São
            Paulo", São Paulo, Typographia de Costa Silveira, 1838.
OLIVEIRA, José Joaquim Machado de - "Quadro Estatístico de alguns Estabele
cimentos Ruraes da Provincia de São Paulo", in "Documentos com que o
Ilustrissimo e Excellentissimo Senhor Dr. José Antonio Saraiva, Presidente
da Provincia de S. Paulo instruio o Relatorio da Abertura da Assemblea
Legislativa Provincial no dia 15 de fevereiro de 1855", São Paulo, Typogra
phia 2 de dezembro, 1855.
TSCHUDDI, J. J. von - "Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo",
            São Paulo, Livraria Martins Editora, 1953, (Biblioteca Histórica Paulista - V).
 
II - FONTES SECUNDARIAS

BRANDÃO SOBRINHO, Júlio - "A Lavoura de canna e a Industria Assucareira dos
Estados Paulista e Fluminense", São Paulo, Typographia Brazil de Roths
child & Co., 1912.
FURTADO, Celso - "Formação Econômica do Brasil", 7.ª ed. São Paulo, Com
            panhia Editora Nacional, 1967.
LISANTI FILHO, Luiz - "Comércio e Capitalismo: O Brasil e a Europa entre o
fim do século XVIII e o início do século XIX (O Exemplo de três vilas
paulistas: Campinas, Itú e Pôrto Feliz) 1798 - 1828/9", São Paulo, 1962.
Tese de doutoramento apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. (mimeografada).
PETRONE, Maria Thereza Schorer - "A Lavoura Canavieira em São Paulo Expan
            são e Declínio (1765-1851}", São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1968.
            PINTO, Virgílio Noya - "Ritmos da Economia e Dependência Econômica em face
            dos Mercados Externos", "Anais do Museu Paulista", Tomo XIX, São Paulo,
            1965. pp. 107-126.
PRADO JÚNIOR, Caio - "Formação do Brasil Contemporâneo (Colônia}", 7ª ed.
            São Paulo, Editôra Brasiliense, 1963.
            QUEIROZ, Suely Robles Reis de - "Algumas notas sobre a lavoura do açúcar em
            São Paulo no periodo colonial", "Anais do Museu Paulista", Tomo XXI,
            São Paulo, 1967. pp. 109-277.

O VIRADO PAULISTA



O VIRADO PAULISTA  (*)


Em seu excelente ensaio histórico sobre as monções que, a partir do primeiro quartel do século XVIII, marcaram uma nova etapa na história pátria, Sérgio Buarque de Holanda dedica especial atenção às questões relacionadas com a alimentação dos monçoeiros. Dura pena sofreram aqueles paulistas bem como gente de outras plagas que se aventurou Tietê abaixo, fosse espontaneamente em direitura às minas auríferas, de pouco descobertas no Cuiabá, fosse, mais tarde, compulsoriamente em rumo a praça forte de Nossa Senhora dos Prazeres de Iguatemi, cemitério de paulistas, criado, e por muito tempo mantido pelo Morgado de Mateus, capitão-general de São Paulo nos confins das terras lusas com as do Paraguai.
Lembra aquele autor que, a bordo das canoas "a farinha tinha em muitos pontos, papel semelhante ao que desempenhara o famoso biscoito das galeras nas antigas viagens ultramarinas. Farinha de milho principalmente, se é verdade que a mandioca só começa a ser cultivada, em escala apreciável, no planalto, em fins do século XVIII que o produto conduzido a bordo, durante o mesmo século, provinha, sobretudo, dos distritos de Itu e Araritaguaba, onde sempre foram numerosas as roças de milho" [1]. Mas não era a farinha de milho alimento exclusivo. Pelo contrário, ela era complementada pelo feijão e pelo toucinho de porco. Dessa ração monçoeira, por assim dizer, aquele autor refere-se a informações contidas em publicações de documentos antigos, que registram a seguinte ração individual, para cálculo dos suprimentos necessários durante as longas jornadas; cento e quinze gramas de toucinho por dia; nove litros de farinha de milho por dez dias e quatro e meio litros de feijão pelos mesmos dez dias [2]. Essa a ração atribuída, indistintamente a mareantes e passageiros [3]. Sistematicamente, obedeciam à mesma rotina, o preparo das refeições, dias após dias. "Antes do pôr-do-sol, costumavam os homens arranchar-se e cuidar da ceia, que constava principalmente de feijão com toucinho, o panem nostrum quotidianum dos navegantes, segundo expressão de um deles, além da indefectível farinha de milho ou de mandioca), e algum pescado apanhado pelo caminho" [4].
A tal ponto se integrara no regime alimentar paulista o virado de feijão que, diz-se, o próprio dom Pedro, por razões óbvias, em uma de suas visitas a São Paulo, comeu à moda da terra, em banquete público, feijão preparado com toucinho e farinha [5].
Em introdução aos Relatos monçoeiros faz o saudoso mestre Afonso de Escragnolle Taunay, um apanhado dessa característica invariável dos hábitos alimentares de então. "O virado paulista de feijão era o grande recurso dos monçoeiros; a famosa mistura de feijão preparado com toucinho e farinha. A farinha de milho predominava muito sobre a de mandioca. No aprovisionamento das monções vemos sempre figurar esse elementos essenciais. Os alqueires de farinha de milho eram sempre um pouco mais que os de feijão o número destes determinava outro idêntico de arrobas de toucinho. A predominância da farinha de milho sobre a de mandioca era em geral muito acentuada. Mas isso não era regra sem exceção, pois na monção de Rodrigo César de Menezes, em 1726, foram embarcados cem alqueires de farinha de mandioca e 150 da de milho, para 65 de feijão e 23 de trigo" [6]. É evidente que, quando havia exclusivamente farinha de mandioca para comprar, ao serem armadas as monções, não prevalecia dúvida alguma. Abasteciam-na com farinha da famosa raiz. Mas o costume mesmo era farinha de milho, não apenas para o aprovisionamento inicial, como porque, durante a viagem, por ali ou por outras rotas bandeirantes, era mais fácil de ser encontrada pronta, ou prepará-la quando não existia disponível. E, no caso presente, explica-se, também, pelo fato de ser Rodrigo César de Menezes recém-chegado de outras plagas, talvez já habituado à farinha de mandioca e, ainda, com o seu paladar não identificado com a farinha paulista.
Ao longo da rota monçoeira, espalhavam-se pequenas roças de milho e feijão, para vender aos navegantes. Também capados e galinhas. Da viagem que fez às minas de Cuiabá, em 1727, o capitão João Antônio Cabral Camelo deixou um relato onde se pode avaliar a disposição de tais postos de eventual reabastecimento. Dia e meio de viagem, abaixo da barra do rio Piracicaba, encontravam-se dois moradores, com roças de milho e feijão, além de porcos e galinhas, para vender aos que passavam, de ida ou de volta de Cuiabá. Dali ao rio Paraná, iam doze ou treze dias de navegação. No rio Paraná, abaixo da barra do rio Verde estavam dois outros roceiros, com suas plantas de milho e feijão em abundância e que vendiam pelo preço que desejassem; a primeira destas duas roças, situada na margem esquerda, possuía uma capela em honra de São Bom Jesus. Depois de transposto o varadouro de Camapuã, rodados o Coxim e o Taquari, entravam no rio Paraguai e, logo adiante, alcançavam a barra do rio Cuiabá.
Daí para cima, ao quarto ou quinto dia se chega ao Arraial velho, ou registro, que vem a ser uma roça com muito bom bananal; dia e meio acima desta roça está outra, também povoada, e desta até aos Morrinhos, que serão sete ou oito dias de viagem, a outras duas que dão bastante milho e feijão; porém, dos Morrinhos até a vila, que são seis ou sete dias, quase todo este rio está cercado de roças e fazendas, como também quatro ou cinco acima da mesma vila (Cuiabá) e em todas se plantam milho e feijão, em os dois meses do ano março e setembro, dão, também, excelente mandioca, de que se faz farinha" [7].
Tendo lá permanecido algum tempo, regressou o capitão Cabral Camelo. Partindo de Cuiabá, com 14 dias de viagem chegou à primeira roça situada no rio Taquari. Insegura a vida e incerto o destino daqueles roceiros solitários e destemerosos. Continuando o trajeto, chega a roça do Caijuru: passa em seguida o salto do Corau e o Nhanduí-mirim, encontrando as roças todas despovoadas. É que os roceiros tinham sido mortos pelos índios Caiapós. Abaixo do Caijuru existia gente nas roças. Chega ao Nhanduí e, no dia em que parte dali, parte também o roceiro, amedrontado com as correrias da indiada.
Abaixo do Nhanduí estavam também despovoadas as roças como também a primeira situada no rio Paraná. Na outra, pouco mais acima, estava lá apenas um único homem. No Tietê, abaixo da foz do Piracicaba, existiam quatro roças com gente e muitas outras despovoadas. Entre este ponto e Itú existia apenas uma única roça. Entretanto, nas quatros últimas léguas para chegar à vila de Araritaguaba, estava bem povoada a região marginal do Tietê [8].
Mas o capitão Camelo, sete anos mais tarde, em 1734, faz nova viagem a Cuiabá, de onde retornou a pé, curtindo duras penas. Como é óbvio, não podia um pedestre transportar os gêneros necessários ao consumo normal durante a extensa caminhada, tal como viajando embarcado. E o feijão faltava; a farinha era pouca; o toucinho escasso. Sacrifício imenso, "porque o feijão, que era todo o nosso regalo, não se pode carregar todo o necessário, e, assim, não comíamos mais que um pouco de angu, que se fazia para os negros e brancos de uma pouca farinha com algum toucinho derretido, ou desfeito em água; em Camapuã não foi menor a miséria, que o Caiapó nos queimou a rancharia; etc." [9]. A fazenda do Camapuã, situada no divisor de águas Paraná-Paraguai, entre as cabeceiras do Pardo e do Coxim, era por onde varavam as canoas; por terra e, principalmente, onde se refaziam as reservas alimentares das expedições. A situação era essa. De vez em quando, a bugrada dava em cima daqueles roceiros isolados, e, de um ano para o outro, ou entre a ida e a volta, os viajantes já não encontravam recursos onde e de que tinham-se valido na passagem anterior.
Em meio ao terceiro quartel do século XVIII, ou melhor, no ano de 1769, uma importante monção foi despachada em rumo à praça forte de Iguatemi, nas lindes paraguaias. Comandava-a Teotônio José Juzarte. Desde os preparativos em Arantaguaba (Porto Feliz), o responsável pelo sucesso da viagem em que iam cerca de oitocentas pessoas multiplicava-se em providências indispensáveis, em cuidados e planos de toda espécie, inclusive e principalmente, naqueles referentes à alimentação. "O mantimento de que se fornecem estas embarcações para a viagem não excede a feijão, farinha de mandioca ou de milho, toucinho e sal, que é o cotidiano sustento, exceto alguma caça, ou peixe, se o há". Mas necessário era prever a quantidade de cada um dos gêneros em função do número dos que integravam a monção e o tempo que seria consumido na viagem. E inclusive o acondicionamento. "Este mantimento, feita a conta do que se precisa para cada canoa, durante a viagem, se acomoda em sacos cilindrados que tem um pé de diâmetro e cinco ou seis de comprido esta figura é a que convém para se acomodarem melhor, pelo seu comprimento e pouco diâmetro". Em seguida Juzarte anota o sistema de alimentação quanto ao horário e condições do alimento. "Durante a dita viagem se costuma cozinhar à noite, o que se há de comer no outro dia, e porque não se pode acender fogo ao jantar, come-se frio o feijão que ontem se cozinhou" [10].
E lá se foi a expedição rio abaixo. Desceu o Tietê, rodou o Paraná. Com quarenta dias de viagem alcançava a barra do Iguatemi. Era já dolorosa a situação dos expedicionários, no que tangia à alimentação. Porque sofrimentos de outra natureza já tinham principiado no mesmo dia, ou de véspera, da partida do porto monçoeiro. "Nesta altura – dizia – Juzarte – já se não perdoava a macaco, capivara ou outro qualquer bicho, para se comer, porque a ração se diminuía, e a fome apertava, a farinha já ia corrupta pelas umidades, e essa pouca, o feijão também pouco, podre, e já nascendo por conta das muitas umidades, toucinho quase nenhum, nestes termos, além dos muitos enfermos que já tínhamos cuidávamos em abreviar a jornada" [11]. A coisa era assim: difícil com bastante feijão, toucinho e farinha de milho; horrorosa sem aqueles alimentos.
Na travessia do lago Xaraes, em viagem realizada por volta de 1786. Lacerda e Almeira durante sete dias, passou "com um pouco de farinha de milho e marmelada, já ardida que de São Paulo vem para todas as Minas para negócio, etc." E mais adiante ao entrar no rio Paraguai, vindo de Cuiabá, dá o seu testemunho sobre a valia do complexo alimentar bandeirante. "Vi então, por experiência própria que o melhor guisado do mundo, e o mais inocente, é o feijão e toucinho pouco cozidos. Este é o bom efeito da sobriedade" [12].
Um dos primeiros testemunhos, no século XIX, da alimentação à base do virado paulista foi Mawe sem dúvida. "A alimentação usual dos habitantes é a seguinte: para o almoço, uma variedade de leguminosa chamada feijão cozido, e depois misturado com farinha de milho; para o jantar, feijão cozido com carne de porco gordo, e algumas folhas de repolho, uma espécie de pirão feito com caldo de carne de porco derramado num prato de farinha sendo comido com a mão, que é muito apreciado para a ceia, umas pobres hortaliças também cozinhadas com porco" [13]. Estava o autor da viagem pela zona de Cantagalo, na província fluminense. Esse comer com a mão, a que Mawe se refere deve ser pelo processo de fazer "capitão", juntando farinha ao virado até que seja obtida a consistência necessária para manter íntegro um pelote de virado feito com as pontas dos dedos, sobre o prato, para tornar possível leva-lo à boca. É o que ouvi contar, na minha infância, sobre como "os antigos faziam".
Voltemos às monções cuiabanas. Hercules Florence registrou, no relato de sua viagem fluvial até o Amazonas, em 1826, o ritmo das refeições diárias. "Navegamos todo o dia parando só para tomar refeição. De manhã, nossa gente almoçava farinha de milho desmanchada em água fria e açucarada. Ao meio-dia abicava-se para jantar. Comia-se a essa hora um prato de feijões feito de véspera com toucinho e que, depois de aquecidos, misturam-se com farinha de milho" [14]. Feijão e farinha e toucinho também não deviam faltar nas monções. Quando bem calculadas as necessidades, o que levavam bastava, até arribarem em local de reabastecimento, se tudo corria bem, sem atrasos inesperados. E nas viagens para Cuiabá, e além, as grandes expedições possuíam parece, um único grande centro de reabastecimento: Camapuã. "Como de Porto Feliz – comprova-o Hercules Florence – partíramos levando a quantidade de farinha de milho necessária para a viagem até Camapuã, a fim de não carregar demais as canoas, tivemos que encomendar 120 alqueires de farinha foi toda batida a poder de braço, nos simples pilões de uso doméstico.
O velho hábito do feijão com farinha de milho cristalizou-se no complexo alimentar de nossa população rural. Na penúltima década do século passado. Ina Von Binzer, jovem professora alemã que ensinou filhos de fazendeiros paulistas e fluminenses, de uma fazendo do estado do Rio de Janeiro, próximo ao de São Paulo, mandava contar, em carta a uma sua compatriota, entre as muitas coisas que aqui ocorriam, que andava "namorando a farinha de milho e a de mandioca que vem à mesa em cestas de pão e que os brasileiros misturam com feijões cheios de caldo, etc." [16]. Até ao paladar de uma jovem professora germânica completamente desabituada a coisas que tais, acabou sabendo bem o nosso feijão com farinha. E alguns torresminhos misturados...


Notas:
1. Sérgio Buarque de Holanda, Monções. Rio de Janeiro. 1945, p.186.
2. Departamento do Arquivo do Estado, Documentos interessantes, v.7, São Paulo, p.46
3. Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., p.195
4. Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., p.186
5. Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., p.187
6. Afonso de E. Taunay, Relatos monçoeiros, São Paulo
7. Afonso de E. Taunay, op. cit., p.115-122
8. Afonso de E. Taunay, op. cit., p.132
9. Afonso de E. Taunay, op. cit., p.133
10. Afonso de E. Taunay, op. cit., p.219
11. Afonso de E. Taunay, op. cit., p.252
12. Francisco José de Lacerda e Almeida. "Diário de viagens de..." São Paulo. 1841, p.66
13. John Mawe, Viagem ao interior do Brasil, Rio de Janeiro, 1944, p.129.
14. Hercules Florence, Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas, São Paulo, 1948, p.96
15. Hercules Florence, op. cit., p.106
16. Ina Von Binzer. Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil, São Paulo, 1946, p.27.


(Schmidt, Carlos Borges. "O virado paulista". Diário de São Paulo, 21 de junho 1959)

(*)http://jangadabrasil.com.br/outubro50/cp50100c.htm

Paulistas e Colonos de São Paulo nas Garras da Inquisição



Paulistas e Colonos de São Paulo nas Garras da Inquisição


Muito pouco se escreveu até hoje sobre a Inquisição em São Paulo. Tema apaixonante mas pouco pesquisado, malgrado a existência de documentação substantiva que permite-nos afirmar que este Monstrum Horribilem, o famigerado Tribunal do Santo Ofício da Inquisição teve atuação muito mais freqüente e repetida na Capitania de São Paulo, do que até agora os historiadores revelaram.
Quando se fala da presença do Santo Ofício da Inquisição no Brasil, imediatamente se pensa no Nordeste, posto ter sido a Bahia e Pernambuco as Capitanias mais atingidas pela famigeradas Visitações de 1591 e 1618 (1). Embora bem menos devassadas, também as Capitanias do Sul, inclusive São Paulo, padeceram terríveis constrangimentos e perseguições por parte do incendiário Monstro Sagrado, tanto que dos 20 moradores do Brasil a ser queimados nos Autos de Fé de Lisboa, quando menos dois eram residentes nos planaltos de Piratininga: Teotônio da Costa (1686) e Miguel de Mendonça Valhadolid (1731) ambos in-culpados por praticar a Lei de Moisés. (2)
Após prolongadas pesquisas na Torre do Tombo, de Lisboa, onde estão arquivados mais de 40 mil processos inquisitoriais e outro tanto de denúncias e confissões pertencentes à alçada do Santo Ofício, localizamos pessoalmente, até agora, 47 episódios envolvendo moradores da Capitania de São Paulo - material em sua maior parte inédito e que aguarda que algum pesquisador da terra lhe dê tratamento mais acurado e a divulgação que está por merecer.
Praticamente todos os crimes perseguidos pela Inquisição foram praticados e denunciados em São Paulo, destacando-se 16 padres solicitantes, oito sodomitas, sete bígamos, sete feiticeiros, três autores de proposições heréticas, dois cristãos-novos e ainda dois episódios envolvendo irregularidades no exercício do cargo de Familiar do Santo Oficio. Tais números certamente estão sujeitos a acréscimos - sobretudo quanto à presença dos criptojudeus, a minoria religiosa mais perseguida pela sanha inquisitorial - sobre os quais o leitor interessado encontrará maiores informações notadamente nas obras de José Gonçalves Salvador, Arnold Wiznitzer e Anita Novinsky.(3)
Dos residentes na Capitania de São Paulo cujos nomes e desvios chegaram ao Tribunal do Santo Ofício, nos concentraremos inicialmente nos inculpados em crimes da fé: sete acusações de feitiçaria, três denúncias de proposições heréticas e dois casos de livres-pensadores. Numa segunda parte deste ensaio analisaremos as histórias de vida de 16 padres residentes na Capitania de S.Paulo envolvidos com melindroso pecado: a solicitação no confessionário de suas penitentes para atos torpes, na época chamada de "solicitatio ad turpia".
Deixaremos para outra ocasião o estudo dos demais desviantes sexuais: os oito sodomitas (homossexuais masculinos) e os sete bígamos.
Os doze episódios atinentes aos chamados "crimes contra a fé" ocorreram entre os anos de 1741 é 1781, portanto no período que inclui a restauração da Capitania (1765) e a chegada de seu primeiro Bispo (1764), época em que essa região, até então muito marcada pelo apresamento e tráfico de índios, amplia sua base econômica, passando a incrementar, além da policultura de subsistência, a florescente agroindústria açucareira e a manufatura têxtil, as famosas redes paulistas tão disputadas pelos viajantes coloniais. E nessa segunda metade do século XVIII que tem lugar a maior ocupação das regiões de Atibaia, Sorocaba e Itu - exatamente as áreas mais citadas nos medonhos Cadernos do Promotor da Inquisição de Lisboa.

Hereges e libertinos

Desses doze episódios desviantes em questão de Fé ocorridos em São Paulo, comecemos pelo mais recuado cronologicamente - 1741 - quando um cidadão residente na vila de Araritaguaba (hoje Porto Feliz) é denunciado ao Santo Oficio como libertino. Eis como o dicionarista Antônio de Moraes e Silva, ele próprio denunciado à Inquisição de Coimbra por esse mesmo crime, definia o que era um libertino: "Indivíduo que é incrédulo na religião e ofende as suas práticas; pessoa que sacudiu o jugo da revelação, entendendo que a razão por si só pode guiar com certeza no que respeita a Deus, à vida futura etc., e por isso não segue os preceitos da religião, antes, pratica atos contrários aos seus princípios".(4)
Essa denúncia ocorreu entre os dias 20-25 de setembro de 1741, inculpando Lucas da Costa Pereira, natural do Funchal, então morador na Freguesia de Nossa Senhora da Penha de Araritaguaba, sita na margem esquerda do rio Tietê, a cinco léguas de Itu, célebre porto de onde partiam as moções rumo à hinterlândia (5).O acusado era "cirurgião aprovado" e constava ter percorrido "toda a América Meridional, assistindo em muitas terras, aldeias e arraiais da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, entre elas Pindamonhangaba e Taubaté". Devia beirar os 50 anos quando chegou à Inquisição de Lisboa a denúncia de que esse ci-rurgião madeirense "come carne nos dias proibidos, não ouve missa e é acostumado a ter atos sodomíticos, sendo agente, com vários negros boçais para cujo fim os sustenta com largueza"(6). Um de seus denunciantes ostentava nome pomposo: Capitão Salvador Mar-tins Bonilha, morador na mesma freguesia, que interpretou as práticas libertinas do cirurgião andarilho como "crime de judaísmo", acrescentando ao rol de suas culpa-s um hediondo sacrilégio muitas -vezes atribuído aos criptojudeus: "teria metido no fogo uma imagem do Menino Jesus!" . Zeloso, o Comissário do Santo Ofício local acondicionou num tufo de algodão a referida imagem carbonizada e a despachou além-mar para que os próprios delegados inquisitoriais avaliassem o sacrilégio. Solícitos em cortar o mal pela raiz, ordenam os Inquisidores a abertura de um Sumário - ordem que leva seis meses de viagem para chegar do Reino às margens do Tietê. Aos 20 de agosto de 1743 tem início o inquérito secreto "em um corredor do Convento do Carmo da Vila de Itu", desempenhando o cargo de Comissário do Santo Ofício o Padre Miguel Dias Ferreira e como escrivão o carmelitano Frei Diogo Antunes. Uma dezena de testemunhas confirma as acusações, insistindo, contudo, insistem mais no crime sodomia do que no de "libertino" ratificando a preferência do réu por negros boçais, incluindo entre seus cúmplices alguns nativos de Angola, Congo, Benguela, além de crioulos, aos quais "regalava-os com comida e aguardente, brindando-os ele primeiro..." Um sodomita reinol praticante da democracia racial em pleno período escravigista... Entre seus desvios religiosos, além dos já citados, constava "só querer comer toucinho com couves às sextas-feiras". Sacrilégio cabeludo para aquela época em que qualquer pecadilho levava os católicos a uma eternidade de dias nas chamas do purgatório.
Quando do início desse Sumário, o cirurgião Lucas já tinha se retirado de São Paulo, com destino às Minas de Goiás, tanto que somente por volta de 1747 é que a Inquisição conseguirá finalmente agarrar o sodomita libertino de Araritaguaba, sendo condenado primeiro à pena dos açoites, em seguida a dez anos de degredo nas galés del-Rei.
Por conta das Visitas Pastorais realizadas no Bispado de São Paulo - pelo Padre Policarpo de Abreu Nogueira, entre 1765-1771, diversos são os desviantes a ter seus nomes enviados ao Tribunal da Fé de Lisboa. Entre eles, o tropeiro Luiz Carvalho Souto, também morador na freguesia de Nossa Senhora Mãe dos Homens de Araritaguaba, que como o cirurgião do Funchal, mantinha acesa nessa vila a chama iluminista da "seita dos libertinos'; sendo acusado de comer carne nos dias proibidos, não se confessar conforme ordenam os mandamentos da Santa Madre Igreja, defendendo ainda a herética proposição de que "o sexto mandamento (não pecar contra a castidade) não era pecado e nem levava ninguém ao inferno"(7). Centenas de colonos e moradores não só do Reino de Portugal mas também da Espanha foram igualmente denunciados ao Santo Ofício por defender publicamente a mesma convicção: que a "fornicação simples", como os teólogos chamavam às práticas sexuais de gente desimpedida fora do casamento, não eram moralmente condenáveis.Além destes dois libertinos das margens do Tietê, mais quatro moradores da Capitania de São à Paulo são denunciados por emitirem opiniões contrárias à ortodoxia católica. Em 1762, na vila de Taubaté, Pascoal Pereira, solteiro, defendia que "as almas condenadas haviam de ser remidas, e sua condenação não seria eterna"(8), opinião muitas vezes ressuscitada ao longo dos dois milênios da história cristã, e que teve em Giovanni Papini (1881-1956) seu mais recente defensor. Proposição herética altamente revolucionária - não obstante estar muito mais próxima da caridade cristã do que a intransigência do preceito canônico católico oficial - pois abria espaço para os réprobos (condenados ao inferno) de no futuro se beneficiarem da misericórdia divina - relativizando destarte o medo da condenação eterna.
Em 1770, na Devassa realizada pelo incansável Visitador Padre Policarpo de Abreu Nogueira, na Freguesia de Nossa Senhora do Bonsucesso de Pindamonhangaba, saiu denunciado Pedro Antonio "negociante de negros e animais", acusado de também defender que "Jesus não deixou o 6° Manda-mento como pecado entre os solteiros, e só o deixou por São Pedro instar .:"(9)certamente alegando ter sido o Príncipe dos Apóstolos o único dos Discípulos a ter a sogra citada no Evangelho. Pelo visto, a defesa de que a "fornicação simples não era pecado" foi das proposições heréticas mais constantes não só na Península Ibérica, como também na América Latina, inclusive em São Paulo Colonia,(10) vertente heterodoxa reforçada pela generalizada e até hoje cantada opinião em verso e prosa de que "não existe pecado debaixo do Equador".
No ano seguinte, o mesmo sacerdote comunica a Lisboa que na visita à Freguesia de São João de Atibaia saiu denunciado o sitiante Francisco Camargo Pimentel, por repetir o mesmo impropério: que "o 6° Mandamento não era pecado"(11). Até na remota Itapeva, "situada junto à estrada real na vizinhança do Rio Verde, pequena vila com matriz dedicada a Sant'Ana,(12) havia leigos que ousavam interpretar a Doutrina à sua moda, em flagrante conflito com o ensinamento de Roma.
Em 1777 chega aos Estaus do Tribunal do Rossio a informação inculpando mais um paulista: constava que Manoel José, vendedor de fazendas secas, defendia que "no inferno não se padeciam tormentos e os padres diziam isto para aterrorizar, pois (o castigo) era so-mente o não ver Deus"(13). Opinião absolutamente contrária aos dogmas da Sagrada Teologia que afirmava "sofrerem os réprobos no grande lago da ira de Deus, duas sortes de castigos: a pena do dano, que consiste na privação da visita de Deus e a pena do sentido, o tormento de arder num fogo que nunca se extinguirá!"(14)
Ainda mais um paulista tem seu nome registrado nos volumosos e temidos Cadernos do Promotor da Inquisição de Lisboa, inculpado de proferir heresias relativas à moral sexual. Manoel Xavier Lacerda, "morador em Jacuí, Capitania de São Paulo", vivia amancebado com uma cunhada, e defendia que por esta causa não devia ser excomungado conforme determinavam as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (§969 e seguintes), alegando haver muitos homens amancebados com suas comadres, cunhadas e parentes, "e se Deus não houvesse de dar o céu aos homens por causa do 6° Mandamento, que guardasse o céu para palheiro, acrescentando que o 6° Manda-mento não era pecado pois se o fosse ninguém se salvaria", defendendo ainda abertamente a herética proposição de que "a fornicação simples não era pecado".(15) Êta paulistaiada petulante!

Feiticeiros, Curadores e Mandingueiros

Entre 1762-1781 chegam à Inquisição lisboeta sete denúncias contra moradores da Capitania de São Paulo envolvidos com a prática de diferentes tipos de sortilégios, sendo três curadores, três feiticeiros e um portador de uma "bolsa de mandinga" , três dos quais viviam em Guarapiranga, e os restantes em Santos, Cotia, Mogi das Cruzes e Sorocaba. Todos os protagonistas destes episódios, em sua maior parte são descendentes de africanos, e suas história permaneceram até hoje ignoradas na poeira dos arquivos inquisitoriais, e é com alegria que os resgatamos à luz do dia, fornecendo aos estudiosos das religiões afro-brasileiras informações inéditas sobre práticas divinatórias e cerimônias cabalísticas praticadas em São Paulo na segunda metade dos Setecentos.
As chamadas bolsas de mandinga ou patuás eram amuletos apreciadíssimos pelos colonos afro-luso-ameríndio-brasileiros, tendo levado às barras do Tribunal da Fé mais de uma dezena de escravos e libertos não só do Brasil, como também de Portugal(16), sendo este o motivo da realização de um Sumário de culpas na Visita Pastoral de Sorocaba no ano do Senhor de 1767. "Vi-la considerável e florescente, é ornada com uma igreja paroquial da invocação de Nossa Senhora da Ponte, um recolhimento de mulheres, um Hospício de Bentos, uma Ermida de Santo Antônio e outra dedicada a Nossa Senhora do Rosário, cuja construção os pretos continuam".(17) Famosa por sua feira de muares, em Sorocaba se concentrava buliçosa população de tropeiros, vaqueiros, tangedores e viandantes, os principais aficcionados desta devoção a um tempo sincrética e sacrílega, à qual se atribuía o poder de "fechar o corpo" contra todo tipo de perigos físicos ou malefícios diabólicos.
O acusado era conhecido tão somente pelo nome de João, Mu-lato Escravo. Ao ser agarrado pela autoridade eclesiástica, aberto o patuá que trazia no pescoço, dentro se encontrou um pedaço de sangüíneo (espécie de guardanapo utilizado na missa para limpar as derradeiras gotas do sangue de Cristo conservadas no cálice), um pedacito de corporal (toalhinha destinada a abrigar partículas do corpo de Cristo caídas no altar), além da folha de um missal com oração e gravura de Jesus, uma hóstia consagrada - que segundo declarou o réu, fora-lhe ofertada por um sacristão - "e muitas outras coisas, como raízes, dentes de cobra, etc. que por não serem da Igreja, foram queimadas".(18) Diz o documento que "o sangüíneo ainda cheirava vinho" sugerindo ter sido recentemente surrupiado da sacristia. Ao ser inquirido por que razão trazia a dita hóstia consagrada, respondeu o mulato João que "era para comungar na hora de sua morte", inspiração piedosa, porém sacrílega, posto que até poucos anos, apenas os sacerdotes tinham o privilégio de tocar no preciosíssimo corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só um estudo comparativo dos outros réus do Brasil, que por trazerem semelhantes bolsas de mandinga foram presos e processados nos cárceres secretos da Inquisição, poderá esclarecer porque este escravo de Sorocaba teve melhor sorte, sendo arquivado este Sumário sem que os Inquisidores determinassem seu aprisionamento. Aliás, salvo erro, nenhum dos residentes em São Paulo acusados pela prática de feitiçaria chegou de fato a ser encarcerado pela Inquisição, nem mesmo a perigosa bruxa Inácia, negra crioula, escrava de Manoel Pereira Camargo, residente em Cotia. infamada de ter morto a muitas pessoas graças a seus medonhos feitiços.(19)
Sobre alguns destes feiticeiros e curadores dispomos de interessantes informações sobre o modus operandi no exercício de suas artes divinatórias. Vários deles viviam sob o jugo da escravidão, como o negro José, escravo de Francisco Andrade, morador na Freguesia de Santana de Mogi das Cruzes, contra o qual é feito um Sumário onde 19 testemunhas fornecem interessantes detalhes etnográficos sobre suas mistificações(20).É acusado de "curar feitiços no Distrito a fora, adivinhando quem os botou, usando de uma panela (de barro) nova, onde colocava caveiras de caranguejos (e de outros animais) com água, e na boca mete um dedal de prata dizendo certas palavras, tendo um frango preto ao lado da panela." Uma testemunha dá outras informações: disse que as caveiras usadas por José eram de pássaros (corvos) e que durante o "trabalho"; falava palavras em sua língua nativa, desenterrando com uma faca, dentro ou fora das casas, assim como pelas encruzilhadas das estradas, misteriosas botijas ou saquinhos repletos de ossos de sapo, penas, vidros, cabelos, pimenta, agulhas e outros espantosos ingredientes. Tinha também o costume de tirar água da dita panela e aspergir com a boca pela soleira da porta, ou esguichando-a no chão quando abria os ditos buracos para desenterrar feitiços - mantendo sempre o galo preto a seu lado, do qual, certa feita, tirou três penas do rabo, com elas fazendo uma cruz quando no ato de descobrir malefícios. A um doente recomendou o uso de defumadores. Tudo leva a crer que o escravo José gozava de boa consideração por onde passava, tanto que na época em que morou na Freguesia da Sé, na cidade de São Paulo, freqüentou ilustres re-sidências, tendo tratado de Dona Antonia Pinta do Rego, e em Mogi a Maria de Cândida Siqueira, além de outros brancos e a incontáveis negros.
Enquanto este negro de Mogi das Cruzes era expert em desenterrar feitiços, na vila de Santos outro escravo é denunciado exatamente pelo contrário: por ser autor de terríveis malefícios. Chamava-se Felipe - e encontrava-se preso por ordem do Capitão do Forte da Praça de Santos, sob a acusação de ter feito um feitiço tão forte e peçonhento contra seu senhor, o qual "só tem calma mediante os exorcismos da Igreja": Provavelmente pressionado por violenta tortura, o preto Felipe confessou ter praticado os seguintes malefícios: primeiro misturou na comida de seu amo um bocadinho de pó de defunto e dente de jacaré, provocando-lhe fortes dores nas cadeiras e barriga. Em seguida, enterrou debaixo da porta de sua casa um pássaro mirrado, dois ovos de galinha e uma raiz grossa de butá (planta da família das Menispermáceas, também chamada "falso paratudo", raiz medicinal preta por fora e amarela por dentro). Disse ter feito este feitiço "para seu senhor ir mirrando, e que quando os ovos apodrecessem, também lhe apodreceriam as entranhas e que a raiz do butá era para ele conservar a vida e não morrer logo". O negro era o Cão! Disse mais, que fora o preto crioulo Manoel, então trabalhando nas minas de Mato Grosso, quem lhe ensinara tais artes cabalísticas, o qual, certa vez, chamando pelo Diabo à meia noite, em vez de apenas um, apareceram dois Demônios, entrando um no corpo do escravo Felipe e o outro se apossando de seu senhor. Fantasioso, este feiticeiro de Santos garantia que, enquanto esteve preso, uma cobra se encarregava de guardar os feitiços que enterrara na casa de seu amo. Ao ser-lhe arrancada do pescoço sua bolsa de mandinga, assim foram identificados seus ingredientes: um dedo de criança(21), lasquinhas de unha, osso de defunto, pó de sapo, raiz de mil homens (planta da família das Aristolóquias, usada como contraveneno nas picadas de cobra), unicórnio (chifre de rinoceronte). Irônico, o Capitão do For-te da Praça de Santos conclui assim sua denúncia: "Se o escravo Felipe é feiticeiro, que o Santo Ofício conclua..."(22)
Encerramos esta primeira coleção das histórias dos moradores de São Paulo denunciados ao Tribunal da Inquisição pelo crime de feitiçaria com três acusações registradas na vila de Guarapiranga (município de Ribeirão Bonito, zona do Paranapiacaba), no ano de Senhor de 1772. Diferentemente de todos os demais casos, aqui o delatado é um branco, Bento de Lima Prestello, sobrenome de origem italiana, e seu denunciante, Isidoro da Silva Costa, residente na Capela de São Miguel, no mesmo distrito. Disse que este curador viera das minas do Sabará, da freguesia de Santo Antônio da Roça Grande, e assim praticava seus ri-tuais heterodoxos: "punha na mão do enfermo umas raízes contra benignos ("doença que não apresenta caráter grave"), para saber se tinha ou não feitiços, e se a mão tremia, tinha; benzia então o enfermo dizendo: Jesus, Nome de Jesus, Deus te fez, Deus te curou, Deus acanhe a quem te acanhou. Deus te tire o mal que no teu corpo entrou: o ar de lua, ar de figueira, ar de pereira, ar de perlezia, ar de corrupto, ar de inveja, ar de feitiçaria, ar de enchaque, ar de maleitas e mais coisas que não estou ciente pelos poderes da Virgem Maria, São Pedro e São Paulo, que o corpo de Fulano fique são e salvo como na hora em que foi nascido, assim como Nosso Senhor sarou das cinco chagas. Padre-Nosso, Ave Maria". Além desta reza forte, o curador Prestello é acusado de exorcizar os endemoniados - privilégio exclusivo dos sacerdotes detentores da autorização episcopal - "fazendo adivinhações com uma grande bolsa, batendo os pés no chão como fazem os exorcistas, e com uma cruz de contas fazia cruz na cabeça da pessoa enferma que tinha espírito maligno, dizendo umas palavras incompreensíveis e também batia com a bolsa na parte dolorida do enfermo".(23)
Nesta mesma ocasião são denunciados como feiticeiros mais dois moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga: o escravo identificado como João, Preto Mina, useiro em receitar remédios cabalísticos, o qual, ao ser procurado por um tal Pedro Teixeira, respondeu que "não podia curar sem falar com sua gente" - provavelmente referindo-se a seus ancestrais desencarnados, aos quais os nativos da Costa da Mina atribuem poderes preternaturais. Embora africano nato, este João de Guarapiranga já incluía em seus rituais inovações apropriadas da tradição luso-brasileira: "fez uma cruz no chão e no seu meio pôs uma pedra de sal e pingava-lhe uma pinga de cachaça, dando logo asso-bios na tal cruz, e saudava a todos com Louvado Seja Cristo! e como não entendiam os tais assobios, explicava o preto de boca".
Além de João Mina, outro feiticeiro de Guarapiranga é citado na mesma denúncia: José Gonçalves, preto forro, o qual "fazia adivinhações por diferente modo - com uma boceta (caixinha de guardar rapé) dava assobios e depois aplicava os remédios ensinados por sua gente"(24).
Por mais de dois séculos esta dezena de feiticeiros, libertinos, hereges e curadores ficaram esque-cidos na poeira dos arquivos. Ao resgatar-lhes a memória, duas foram nossas intenções: estimular outros pesquisadores a rever cuidadosamente os manuscritos ori-ginais que aqui nos contentamos em resumir, além de indicar sua localização arquivística, facilitando o trabalho de futuros estudiosos. Nossa intenção mais profunda é chamar a atenção de todos, pesquisadores e leitores, para o perigo representado pela hegemonia dos monstros sagrados - sejam os Minotauros, Chibungos, Inquisições e espectros quejandos, que à moda dos mistificadores, quiromantes e prestidigitadores do além, pretendem ser os donos de uma verdade revelada que no mais das vezes não passa de simplória alienação quando não condenável charlatanismo. Concluo a primeira parte deste ensaio fazendo minhas a palavras luminares do Dr. Antônio Gonçalves Gomide, que em 1814 publicou um corajoso opúsculo desmascarando a falsa santidade de uma beata mineira, sua contempo-rânea: "Talvez me argúiam dizendo: que te importa a piedosa fraude em que vivem satisfeitos os crédulos? Privá-los desta ilusão não é tirar-lhes um entretenimento que os consola? Respondo: A verdade é o principal elemento da vida social. A impostura aos ignorantes equivale à opressão da força sobre os mais fracos. O filósofo deve achar e promulgar a verdade.(25)

NOTAS

Agradeço ao CNPq a dotação que me permitiu realizar pesquisas na Torre do Tombo. Este artigo faz parte de um estudo mais amplo intitulado "Moralidade e Sexualidade no Brasil Colonial" e uma versão modificada foi originalmente publicada no D.0. Leitura, SP, 10 (120), maio de 1992.
1. Siqueira, Sônia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, São Paulo, Editora Ática, 1978.
2. Wiznitzer, Arnold. Os judeus no Brasil Colonial, São Paulo, Editora Pioneira, 1966:147
3. Salvador José G. Os Cristãos-Novos: Povoamento e Conquista do Solo Brasileiro. São Paulo, 1976; Cristãos-Novos, Jesuítas e Inquisição. São Paulo, Livra-ria Editora Pioneira, 1969. Novinsky Ani-ta W. Inquisição. Inventários de bens confiscados a Cristãos-Novos. Lisboa, Imprensa Nacional. 1977.
4. Moraes e Silva, Antonio. Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa, Empreza Literária Fluminense, s/d.
5. Aires de Casal, Manuel. Corogratia Brasílica. (1817) São Paulo, Livraria Edi-tora Itatiaia/USP 1976: 114
6. Arquivo Nacional da Torre do Tombo (doravante ANTT), Inquisição de Lisboa, Caderno do Nefando n° 19, fl. 411, 20-9-1741
7. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Araritaguaba, 25-9-1765.
8. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 126, Taubaté, 8.6.1762.
9. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Pindamonhangaba, 10-12-1770.
10. Vainfas, Ronaldo. Trópico dos Pecados. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1989.
11. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Atibaia, 18-2-1771.
12. Aires de Casal, Op. Cit. 1976: 114
13. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Itapeva, 4-10-1777
14. Guillois, Abade Ambrósio. Explicação Histórica, Dogmática, Moral, Litúrgica e Canônica do Catecismo. Porto, Livraria Internacional, 1878: 426.
15. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 131, Jacuí, 27-7-1781.
16. Mott, Luiz. ' A Vida Mística e Erótica do Escravo José Francisco Pereira. "Tempo Brasileiro, (92-93), Jan/Jun. 1988: 85-104. Souza, Laura de Mello. O Diabo na Terra de Santa Cruz. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.
17. Aires de Casal, Op. Cit. 1976: 114
18. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Sorocaba, 1767
19. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 130, Denúncia do Comissário Salvador Camargo Lima, 1781.
20. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 126, Mogi das Cruzes, fl. 32, 1762
21. Mott, Luiz. "Dedo de Anjo, Osso de Defunto: Os restos mortais na feitiçaria afro-luso-brasileira. "D.O. Leitura São Paulo, 8 (90) novembro 1989: 1-3.
22. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Santos, 7-10-1776.
23. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Guarapiranga, 10-5-1772.
24. ANTT Inquisição de Lisboa, Caderno do Promotor n° 129, Guarapiranga, 10-5-1772.
25. Gomide, Antonio Gonçalves. Impugnação analítica ao exame feito em uma rapariga que julgaram santa na capela da Piedade, Comarca de Sabará. Rio de Janeiro, Imprensa Régia, 1814.

Porto Feliz – 1819



Porto Feliz – 1819 (*)


Auguste de Saint-Hilaire

"É muito menos extensa do que Itu e não tão bem construída: sua localização, porém, é infinitamente mais aprazivel. Efetivamente, estende‑se por uma colina, a cujo sopé corre o Tiete. De vários pontos vê‑se este rio, que serpenteia por um profundo vale, tendo situadas em suas margens várias fazendas; mas ao longe vêm-se campanhas cobertas de matas e de pastagens. A colina sobre a qual a cidade foi construída eleva‑se quase a pique acima do Tietê; contudo, em espaço considerável, estende‑se muito suave, até a margem do rio; nesse ponto, denominado porto, efetua‑se os embarques pela via fluvial. O terreno em que foi edificada Porto Feliz é muito acidentado. As ruas da cidade não são calçadas, nem mesmo foram niveladas. As casas, baixas, pequenas, afastadas umas das outras, só tem, em geral, o rés do chão; ao passo que as de Itu são, em sua maioria, construídas de taipa, em Porto Feliz são todas construídas com ripas cruzadas (pau a pique) e terra tapando os interstícios, e isso porque na cidade e seus arredores não é encontrada a argila própria para fazer a taipa. Não há em Porto Feliz senão um edifício religioso, que é a igreja paroquial, sendo a única construção feita como as casas de Itu. Na época de minha viagem, essa igreja, consagrada a Nossa Senhora Mãe dos Homens, não estava ainda inteiramente terminada. Mede cerca de 58 passos de comprimento, a contar da capela‑mor até a porta de entrada; tem duas torres que servem de campanário, construídas, segundo o costume do país, dos dois lados da porta central de entrada.
O Tietê atualmente, só contribui para embelezamento de Porto Feliz; mas, com o correr dos tempos, dará a esta cidade a mais alta importância. Com efeito, além do Salto de Itu, torna‑se ele navegável um pouco abaixo da mesma, e em Porto Feliz, terão início as gigantescas navegações a que já me referi noutro lagar, e que ferem de espanto a imaginação dos europeus, acostumados a seus rios mesquinhos... Já a maior parte das casas de Porto Feliz  pertencem a agricultores, e nessa localidade só vi um pequeno número de lojas e vendas. Constitui a riqueza da região a cultura da cana-de-açucar. Os habitantes de Porto Feliz afirmam ser suas terras, que tem cor vermelha, muito mais adequadas a essa cultura do que as terras de Itu; acrescentam que com o auxílio de dez pretos podem produzir mil arrobas de açucar e mais até; enfim, que não é necessário, depois de arrancada a cana, deixar repousar o terreno por mais de dois a quatro anos. Mas, de outra parte, Porto Feliz está mais longe de Santos do que Itu, gastando‑se mais de oito dias para a viagem a Santos; na época de minha passagem por ali, época em que o milho era raro e extremamente caro, os arrieiros exigiam, para o transporte de uma arroba (14, 7 quilos) uma pataca e meia (3 frs.), importância que, convém não esquecer, tinha valor muito mais elevado do que atualmente,''

(*) Auguste de Saint‑Hilaire ‑ Viagem A Província de São Paulo ( São Paulo, Livraria Martins Editora ‑ Editora da Universidade de São Paulo, 1.972)

Porto Feliz – 1860-1861



Porto Feliz – 1860-1861 (*)




"A cidade está edificada à margem esquerda do rio Tietê e tem a forma de uma guitarra. A sua rua principal é chamada de SOROCABA, por se entroncar com a estrada que vem deste município, e as outras, além de pequenas, são pouca importantes pelas suas construções, e ainda menos pelo seu tráfego.
Aqui existiu primitivamente uma aldeia de indíos Guaianazes, a que davam o nome de Araritaguaba, que significa ARARA QUE COME PEDRA, em virtude de um singular paredão que existe à beira do rio.
Foi elevada a vila esta povoação em 1797, sendo governador de S. Paulo Antonio Manuel de Melo Castro e Mendonça, segundo afirma Milliet: e, há pouco, por uma lei provincial foram concedidos os privilégios de cidade.
O seu comércio é muito insignificante, pois apenas existem aqui algumas tabernas, e poucas lojas de fazendas e armazéns.
A população deste distrito, que já foi de 10 a 11.000 almas, está hoje reduzida a 7.000, sendo 5.000 livres e 2.000 escravos.
A matriz, com a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, é um templo superior ao estado de decadência do lugar; mas parece que vai sofrendo da mesma doença, pois as suas torres ameaçam ruína. A capela‑mor, no entanto, foi pintada e dourada há poucos anos pelo Sr. Miguel Arcanjo Benício Dutra, notável artista ituano. A casa da Câmara e cadeia é um edifício pouco importante.
A colocação pitoresca da cidade, o ameno e sadio clima do lugar, o caráter bondoso e hospitaleiro de seus habitantes, a fertilidade dos terrenos, que produzem café, cana, aguardente, algum chá e fumo, parece um conjunto de circunstancias favoráveis para o estabelecimento e progresso de um núcleo de população interior. Não tem, todavia, acontecido assim.
Acreditamos, por consequência, que, entre as causas do seu atraso, além da primeira, que é a falta de braços, se deve assinalar, como uma das mais dignas de atenção, a nova direção que tomaram às monções para Cuiabá e Mato Grosso, que dantes se faziam por este porto e seguiam pelo rio Tietê''.

(*) Auguste Emílio Zaluar ‑ PERIGRINAÇÃO PELA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO (1860‑1861), São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1944 ‑Biblioteca Histórica Paulista, II)