segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Porto Feliz 1.920



Porto Feliz 1.920 (*)
 (Inauguração do ramal de Boituva a Porto Feliz - Grandes manifestações ao governo findo -  O monumento aos Bandeirantes - Herma offerecida ao dr. Candido Motta - outras notas)


   Em Porto Feliz realizam-se no dia 26 de abril ( 1.920 ) imponentes festejos para commemorar a inauguração do ramal ferreo da Sorocabana entre Boituva e aquela cidade – a  lendaria “Araritaguaba” de onde partiam para as suas arriscadas incursões  pelo sertão os intrépidos bandeirantes paulistas.
   Além de representantes do alto mundo official, muitos outros convidados daqui seguiram em trem especial para assistir aos aludidos festejos.
   Pudemos tomar nota dos seguintes nomes : Dr. Altino Arantes, presidente do Estado e seu ajudante de ordens, capitão Herculano de Carvalho; dr. Candido Motta, secretário da Agricultura, e seu auxiliar do gabinete dr. Edmundo Jordão; dr. José de Goes Artigas, inspector geral da E. F. Sorocabana; dr. Alfredo Braga, director do Museu Paulista; dr. Luis Silveira, comissário geral do estado em Bruxellas; dr. Escragnole Taunay, diretor  do museu Paulista; dr Luis Fructuoso Ferreira da Costa, da comissão Geographica do Estado; dr. Hugo Ribeiro, coronel Valencio de Castro, Fernando Motta Mello, Joaquim Ignacio de Oliveira, esculptor  Julio Starace, coronel Marcolino Barreto, deputado federal; J. Maximiano Motta, Euclydio Lucheal, dr.Plínio Ayres, Sylvio Brand Corrêa, J. Pereira Pinto, Armando Pereira Leite, Jayino de Aguiar, Carlos S. Lichienfels, Alberto Martino, Annibal Machado, do “S. Paulo Ilustrado”: Reynaldo Cunte Boardi, Ottoniel Motta, Edgard Penteado, Francisco Augusto Ferraz do Amaral, José Emydio Ferraz do Amaral, Luiz Ferraz do Amaral, Ataliba de Campos Motta, A . Barros Lobo, José Maurício de Oliveira Sobrinho, Euchario Mauricio de Olliveira, d. Maria José de Oliveira, d. Cacilda Caçapava Oliveira, Adolpho Brand Corrêa, Antonio Madureira, Antonio Emydio de Barros, monsenhor Manfredo Leite, Eduardo Beruin, dr. Oscar da Motta Mello, senhoritas Ruth Motta Mello e Candida do Amaral Motta; dr Leopoldo de Freitas, do “Diário Popular”; dr. Orlando de Almeida Prado, Leopoldo Martins de Camargo, dr. Manoel de Rezende, dr. Theophilo de Souza, da Directoria de Viação; Getulio de Paiva, pelo “Correio Paulistano”.
   As 9 horas e 20 minutos chegava o trem especial a Sorocaba, sendo o sr presidente do Estado e mais membros do governo esperados por importantes elementos sociais e grande multidão.
   Ao sr. Presidente do Estado e do mais excursionistas foram offerecidos, numa das dependencias da estação, café, leite, chocolate, etc.
   Multas das pessoas que aguardavam em Sorocaba a chegada do especial incorporaram-se a comitiva official.

Chegada em Boituva


   Em Boituva, onde uma grande multidão esperava o trem presidencial, juntaram-se á comitiva os srs. deputados drs. Laurindo Minholo e Antonio Cardoso do Amaral; José Giorgi, empreiteiro da construcção do ramal; coronel Ovidio Vieira, dr. Normão Bernardes, Oscar Fernandes, José Candido Freire, Alfredo Baptista das Chagas auxiliar da fiscalização do ramal do Porto Feliz; Miguel Helou e outras pessoas.
   Do lado oposto á estação de Boituva parte o ramal para Porto Feliz. O local achava- se vistosamente enfeitado com bandeiras, folhagens e numerosa multidão andando e saudando os srs, membros do governo.
   Após pequena demora, o sufficiente para substituir por outra mais leve locomotiva que tinha vindo desde S. Paulo – partiu para Porto Feliz, às 11 e meia, o trem inaugural, debaixo de acclamações do povo.

Velha aspiração de Porto Feliz  


Era velha a aspiração do povo de Porto Feliz de ver a sua cidade ligada a Boituva pela estrada de ferro. Esse melhoramento importava na conquista menos penosa de mercado para os productos de seu solo, além de proporcionar o commercio e as industrias locaes maior facilidade nas suas relações tanto com os municípios vizinhos, como com a propria capital.
   Servida embora por uma boa estrada de rodagem, com a extensão de 21 Kilometros, Porto Feliz não perdeu jamais a esperança de ver um dia realisado o sonho que ha muitissimos annos acalentado.
   Vem de longe data a historia dessa estrada. Em 1.836 a Assembléia Provincial approvava um projeto de lei concedendo grande somma de favores á empresa que se organizasse para construir uma via ferrea de Santos a Porto Feliz. Nesse tempo, havia o desejo de terminando a estrada naquela cidade, aproveitar- se o Tietê, rio abaixo, para a navegação.
   Em 1.898, o então deputado estadual dr. Candido Motta apresentou um projeto concedendo a subvenção de 300 contos para a construcção do ramal de Boituva a Porto Feliz, também essa tentativa não logrou successo.
   Achando- se a dirigir a pasta da Agricultura no acctual governo, o dr. Candido Motta conseguiu o que tanto desejavam os portofelicenses: -autorização do governo para mandar construir o decantado ramal. A 26 de maio do ano passado ( 1.919 ) foi solenemente batida a primeira acta do novo trecho da Sorocabana, sendo confiada a sua construção ao conhecido e esforçado empreiteiro J.Giorgi, que dias depois iniciava os serviços com o seu numeroso pessoal . No ramal de Porto Feliz trabalharam em media 700 operários. Esse numero chegou a elevar- se a mil homens, para os serviços de terra foram empregados 400 animais de carroça.
   O novo ramal atravessa uma zona de boas terras roxas e massapé. São culturas principais da região: - o café, o arroz, a canna, o algodão, etc.
   A construção durou cerca de dez meses, devendo- se notar que foram feitas varias obras de arte entre as quaes se encontram quatro pontes, sendo duas com dez metros de vão e duas com cinco metros de vão, dois boeiros com 2m,50 de vão cada um 46 boeiros entre 80 centimetros e um metro de vão; numerosas passagens superiores, inferiores e americanas ( "mata- cavallo", como se diz no interior"); cortes e aterros pequenos grandes, senão que 4 aterros importaram num movimento de 25.000 metros cubicos de terra, mais ou menos, cada um.
   O terreno da região atravessada pelo ramal foi devidamente classificada, com o seguinte resultados : 30 por cento de terra, 70 por cento de rocha, grés pedras soltas e piçarra.
 

A inauguração do trecho


A inauguração do trecho foi feita com a passagem do trem presidencial, tendo o sr. José Giorgi empregado todo o esforço para que tal acontecido fosse coroado de pleno êxito. Usou da palavra o governador Altino Arantes , o secretario Candido Motta e depois o prefeito Eugênio Motta e com os tres o povo prorrompeu em palmas e vivas. A criançada das escolas fez-lhes manifestação.
   Restabelecido o silencio usou da palavra o dr. Alfredo Bauer, que saudou os srs dr. Altino Arantes e Candido Motta.
   Deixando a estação a comitiva seguiu a pé, por entre alas de crianças. Os srs presidente do Estado e secretário da Agricultura foram, então no trajeto pela praça cobertos de petalas de rosas.
   Formou- se grande cortejo no qual tomaram parte as quatro bandas de musicas- seguindo pela rua Sorocaba.
   Terminou brindando a Camara e a  população de Porto Feliz.
   Aplausos prolongados cobriram as ultimas palavras do sr. presidente do Estado.
   Após o banquete os srs dr. Atino Arantes, dr. Candido Motta e os membros da sua comitiva assistiram a um solenne "Te Deum" celebrado na matriz em ação de graças pelo grande melhoramento que acabava de ser inaugurado em Porto Feliz.
   Nesta ocasião subindo ao pulpito orou brilhantemente o monsenhor dr. Manfredo Leite.
   Disse sua revma. que esta mesma fé que outrora, qual pharol rutilante, guiava os passos dessa phalange de grandes, de bravos e de heroes que empunhando uma cruz partiam de Porto Feliz em demanda de outras terras afim de lhes levar a civilização o progresso preside hoje a festa solenne e bella que se está realizando.
   O sr dr. Manfredo Leite, depois de demonstrar cabalmente que todos os pontos da nossa historia estão iluminados pela fé terminou a sua bella oração sendo muito cumprimentado.
  

Inauguração da placa na estação


As 18 e meia horas, acompanhada de grande multidão e varias bandas de musicas a comitiva presidencial dirigiu- se de regresso para a estação.
   Ali houve ainda uma solenidade: a inauguração de uma placa de bronze comemorativa da abertura ao trafego do ramal de Boituva.
   São os seguintes os dizeres dessa placa - "Ramal de Boituva a Porto Feliz"- iniciado em 26-4-1.919 e inaugurado em 26-4-1.920, sendo presidente do Estado o exmo sr dr. Altino Arantes e secretario da Agricultura o exmo sr. dr. Candido Motta.
   O dr. Leopoldo de Freitas fez um discurso alusivo a acta.
   As 18 e meia horas partiu para São Paulo o comboio especial.
   Da inauguração do ramal ferreo de Boituva a Porto Feliz foi lavrada uma acta para ser colocada em local já preparado na estação; assinaram os srs. presidente do estado, secretário da Agricultura e outras pessoas com uma caneta de ouro oferecida a camara pelo sr André Rocha.
   O sr. José Giorgi, contratante da construção do ramal ferreo de Boituva a Porto Feliz, ofereceu aos srs dr. Altino Arantes e dr. Candido Motta dois lindos cartões de ouro com estas incrições:
"Ao exmo sr. presidente do estado dr Altino Arantes - Lembranças da Inauguraçao do ramal ferreo de Boituva a Porto Feliz, oferta que fez o construtor José Giorgi, Porto Feliz, XXVI-IV-MCMXX".
"Ao exmo sr dr. Candido Motta D. D.Secretario do estado do negocios da Agricultura, Comercio e Obras publicas - Lembranças da Inauguração do ramal ferreo de Boituva a Porto Feliz, iniciado em XXVI de março de MCMXIX oferece o construtor José Giorgi Porto Feliz... XXVI-IV-MCMXX".
   Por ocasião da inauguração em Porto Feliz dos importantes melhoramentos a que se refere a nossa noticia, o orgam local, O Novo Porto, publicou uma edição especial.
   Pedimos venia para trancrever desse numero, os seguintes editoraes:
 
 Ramal Ferreo

 Mercê de Deus o aureo sonho do povo de nossa terra transformou -se na mais feliz e ditosa realidade.
   Não tardará o momento em que as nossas almas hão de vibrar de entusiasmo e de delirio, bem perto vem o comboio presidencial soberbo e triunfante a vencer distancia para compartilhar das nossas justas alegrias.
    A  velha aspiração do povo de Porto Feliz é um fato consumado - Se não fora, porém a bondade imensa do Dr. Altino Arantes varão ilustre que com inexcidivel brilho e competencia dirige os destinos de São Paulo, se não fora o dr. Candido Motta, preclaro estadista que dedica amor intenso a terra que lhe serviu de berço talvez jamais ouvissemos o silvo agudo da locomotiva veiculo precursor do progresso e da civilização.
   Razões sobejas temos nós, portofelicenses para nos sentirmos satisfeitos no dia de hoje. A data 26 de Abril marca com carateres indeleveis uma frase de prosperidade nos anaes da velha Araritaguaba- Porto Feliz já merece o nome que tem graças ao amor, ou melhora á abnegação de um filho mui direto que soube resgatar a devida gratidão contraria com a sua terra natal.
   Quem dentre nós, porto felicenses, não se sentirá feliz no dia de hoje?
   Por ventura não será este o dia de maior felicidade ao povo desta terra rica e fertil talhada para ser grande e forte?
   Incontestavelmente agora somos felizes!
   Permita Deus que a aureola da felicidade circumba para sempre a fronte altiva desses dois vultos eminentes que batalharam com ardor em pról da nossa vitoria. Não menos incansavel mostrou - se o sr. Coronel Eugenio Motta, digno prefeito municipal que enviou todos esforços possiveis para ver o nosso supremo ideal completamente realizado.
   O dr. Altino Arantes, o dr Candido Motta e Coronel Eugenio Motta são credores da nossa eterna gratidão.
   Deus os abençoe!
 
 Homenagem

 Não cabe numa cronica feita sem pretenções de caracter biographico ou historico, fallar dos eminentes vultos filhos da velha Araritaguaba, cujos nomes passaram para as paginas da nossa historia,constituindo uma gloria imperecivel para esta terra e um patrimonio apreciavel e valioso para o nosso pais.
   Entre esses nomes gloriosos e venerados destaca- se o do dr. Candido Motta, que muito se notabilizou por seu amor á terra onde viu a luz e pela extrema dedicação em pról do seu progresso.
   Longe estamos de pretender estudar nele o agregio mestre de direito ou consciencioso estadista. Disso hão de se encarregar outros mais talentosos e mais capazes para poderem analisar com certo e justiça as capacidades multiformes deste homem possuidor de formosa inteligencia maleavel aliada a um grande amor pelo trabalho e a um forte senso pratico que o tornam um reputado jurista ouvido com respeito e atenção e ao mesmo tempo, um sagas politico com qualidade de extraordinario administrador que se preocupa em cumprir honesta e escrupulosamente seu dever servindo o seu pais com dedicação e com aplausos de todos aqueles que reconhecem o esforço dispendido e têm exata compreensão das imensas dificuldades de toda ordem que surgem a cada instante ante quem pretende administrar com justiça e proveito publico, procurando servir o interesse da coletividade e defende-lo da ambição dos individuos.
   Pretendemos ainda que pallidamente, falar e seu amor a terra natal, de seus esforços para auxilia-la no desenvolvimento de suas riquezas, de colloca-la no mesmo pé de progresso dos outros municipios do Estado.
   Posso agora morrer, porque esta realizado o sonho mais dourado da minha vida. Assim disse ele no memoravel dia de 26 de Março de 1.919, quando se procedia a inauguração do inicio das obras do ramal ferreo que hoje se acha concluido.
   Esta frase encerra todos os anhelos da sua alma e contém um mixto de tranquilidade, felicidade e intensissimo jubilo porquanto ela é como o epilogo dos ingentes esforços por ele realisados em pról da terra dos bandeirantes.
   Desde que principiou a guindar-se as altas posições que conquistou, independente de proteções e arranjos por seus unicos meritos, teve sempre em mira servir esta terra, defendendo seus direitos e demonstrando aos poderes publicos que ela é merecedora duma melhor sorte, não podendo continuar privada das comunicações pela vida ferrea num exilio desolador que se prolonga por qual um seculo, porquanto o primeiro projeto da estrada de ferro no estado de S. Paulo era ligar Santos a Porto Feliz.
   A herma, portanto que hoje vai ser não podia deixar, hoje que ouve pela primeira vez o silvo do comboio graças aos esforços do Dr. Candido Motta, de prestar uma homenagem sincera a esse homem que nunca olvidou a sua terra natal, servindo a muitas vezes a preço de sacrificios, sendo alvo por isso de criticas de despeitados de invejosos e de nulidades.
   Que homenagem podia corresponder aos serviços prestados pelo Dr. Candido Motta á Porto Feliz?
Cremos que nenhuma a não ser gravar em letras de ouro indeleveis em cada coração porto felicense, o nome deste conterraneo que muito merece a nossa imorredoura gratidão!
   Ele para nós é um verdadeiro idolo que veneramos vendo nele o maior portofelicense entre os vivos e os mortos.
   A herma portanto, que hoje vai ser erigida no jardim publico desta cidade não é mais senão uma pálida e insignificante homenagem comparada com a veneração e a estima que temos pelo grande portofelicense.
   Mas mesmo assim, ela não deixa de synthetisar toda a nossa gratidão e todo o nosso reconhecimento porque a ideia de sua ereção partiu do povo da simplicidade do seu coração e da sinceridade dos seus sentimentos!
   Porto Feliz, 26-4-1920  

Não podiamos terminar estas notas sem uma referencia especial ao nome do sr coronel Eugenio Motta, digno e esforçado prefeito municipal de Porto Feliz e prestigioso chefe politico local.
   A sua excia. que é um trabalhador infadigavel muito deve o progresso da historica cidade cuja administração municipal é um exemplo de muito que pode o honesto esforço quando aliado ao desejo energico de vencer.
   Porto Feliz pode ufunar-se de ter a testa do executivo municipal um moço de grande valor e extraordinaria força de vontade..


(*) S. Paulo   Ilustrado – 1920 - Administração de ANIBAL MACHADO - Secretario Correa de Mello

Reminiscências de Porto Feliz – 1931



Reminiscências de Porto Feliz – 1931 (*)



Pela terceira vez visitei Porto Feliz a longos intervalos (1917, 1922, 1931).
Como das outras duas vezes, um dos meus primeiros cuidados foi descer ao porto geral ( gruta ), cumprindo um dever cívico. Era a hora do crepúsculo, que convidava a meditar. E meditei na epopéia do século XVIII traçada pelos paulistas de antanho ( passado ), quando dali se aventuravam a devassar os sertões de Mato Grosso. Iam em busca de aventuras, ouro e diamantes. Eram as monções célebres que o pintor paulista Almeida Junior imortalizou na tela. Eram também expedições comerciais, partindo as caravanas em diversos batelões que desciam pelo grande rio paulista até a sua foz. Levavam consigo os produtos do mundo civilizado que permutavam por metais preciosos.
Do Tietê deslizavam para o caudaloso Paraná e dai embicavam pelo rio Pardo até o varadouro de Camapuã, de onde faziam baldeação para o Coxim e o Taquari; deste último iam ter pelo Paraguai ao São Lourenço e por fim ao Cuiabá, até a localidade deste nome.
Uma viagem redonda, dizem as crônicas, levava até dois anos. Havia muito a enfrentar: penosas baldeações de um rio para outro, transposição de cachoeiras, febres, índios selvagens, animais bravios, dificuldades sem conta. Seguiam os ousados bandeirantes descobrindo novas terras e introduzindo nelas a civilização.
A abertura dos rios Paraná e Paraguai ao comércio das nações facilitou o intercâmbio entre o Rio de Janeiro e Cuiabá e pós fim as monções de Porto Feliz a Mato Grosso. O estabelecimento da colônia militar de Itapura e a escolha do porto de Piracicaba, como ponto de embarque e fornecimento para a nova colônia, foram o último golpe dado ao comércio de Porto Feliz.
O professor Jacó Vieira de Almeida, falando a respeito das monções de Porto Feliz, assim se expressa: ''Estas viagens fluviais a Cuiabá continuaram até pelo ano de 1836, mais ou menos, em que terminaram, ou porque as febres intermitentes dizimassem as tripulações ou porque se abriram comunicações mais fáceis e mais rápidas pelo rio da Prata. Estas comunicações se tornaram mais freqüentadas depois que os etiquetes a vapor sulcaram as águas do Paraná e do Paraguai, matando definitivamente as monções históricas".
Atualmente ( 1931 ), o comércio de Mato Grosso pelo rio da Prata entrou em franco declínio com a inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Mais facilmente serve para isso o porto de Santos. Em 1920 tive ensejo de travar conhecimento com o vasto território mato-grossense e com os rios Paraná e Paraguai, penetrando até Corumbá, na fronteira boliviana. Quão diferente dos tempos dos bravos pioneiros que levaram meses e anos na fastidiosa peregrinação Em poucos dias vinguei quase a mesma travessia, graças ao século de progresso em que vivemos.
No tempo das monções, Porto Feliz era conhecida pelo seu primitivo nome de Araritaguaba, que Martius assim interpreta: "Sítio onde as araras pousam para comer". De fato, araras e outros pássaros de bico redondo vinham ali beliscar o paredão arenoso e salitrado. João Mendes lastima a mudança do nome nos seguintes termos: "Em verdade, pouco critério mostrou, em 13 de outubro de 1.797, quem tirou ao lugar do lindo nome Araritaguaba para substitui-lo pelo de Porto Feliz, sem embargo de ter sido nos velhos tempos, para os exploradores e negociantes, o início e o termo de grandes riscos e fadigas, nas viagens de ida e volta com destino aos sertões de Mato Grosso e Goiás".
Em boa hora foi inaugurado, em 1920, no porto geral, o monumento comemorativo do arrojado feito daqueles pioneiros da civilização.

Escadarias

Sólida muralha guarnecida de parapeito dá início a escadaria que, do nível de um largo, desce por muitos metros até as margens do Tietê, escada que é atenuada por muitos patamares, em lanços sucessivos, tornando mais fácil o acesso. Era então Secretário de Estado o Dr. Cândido Mota, ilustre filho de Porto Feliz, e as centenas de contos que nisso foram gastos, por certo, não tiveram mau emprego.
A poucos metros do local da partida das expedições, ergue-se hoje vistosa coluna rósea, em cujo pedestal se lê: "Daqui partiam as monções para o interior do Brasil no seculo XVIII". Mais abaixo um verso de Bilac :"E subjugando o olvido atraves das idades, Violador dos sertões, plantador de cidades,­
Dentro do coração da Pátria viverás".
Ao alto da coluna destaca-se uma esfera armilar, dentro da qual arde uma lâmpada, complemento da iluminação que segue pela barranca do rio.
Deveria ser, porém, não uma fraca lâmpada qual se mostra ali, mas um foco intenso a indicar o local de tão assinaladas tradições.
O rio ali expande-se, volvendo-se em curvas de águas vivas. Mais elevado deveria ter sido então o seu nível na época das viagens monçõeiras.
Há ainda algumas testemunhas do passado. Anoso pé de guacucaia, tendo a base calçada de tijolos para conservá-lo, poderia dizer alguma coisa das últimas monções. Parte de um batelão que por muitos anos serviu de cocho numa fazenda é, agora, exposto num galpão protegido por uma rede de arames.
Quando ali estive pela vez primeira, estava exposto aos curiosos e então medi-lhe o diametro considerável, de um tronco só, e nele mesmo penetrei, transportando-me em espírito às eras em que o fluvial veículo da civilização deslizava-se movimentado pelo grande escoadouro paulista. Pena é que nenhuma placa ali afixada explique ao forasteiro o papel um dia assinalado ao veículo formidável. E o viandante que prossegue ao longe da montante do rio até o Engenho Central, caminha maravilhado acompanhando o alpestre paredão que Ihe fica a cavalheiro, em eminencia consideravel, no qual vinham as araras bicar.
A certo trecho a piedade católica abriu na penedia uma gruta de Lourdes, onde os devotos se vem prostrar a cada instante. Em frente, qual adarve de castelo ou fortaleza, uma plataforma de cimento armado foi erguida sobre o rio, que dali pode ser devidamente apreciado. Certamente o trecho do monumento à gruta é o passeio mais pitoresco da velha Araritaguaba. Sente-se o mortal aniquilado ante a formidável mole que Ihe fica sobranceira. De outro lado, empolga-o a venerada tradição do denodo dos aventureiros do século XVIII. Finalmente, ha a eloquência silenciosa do Tietê. Sem linguagem nem fala, suas águas rumorosas vão recordando a epopéia do passado.

Para dar uma idéia do Porto Feliz antigo, do tempo dos capitães-mores, cumpre reproduzir uma cena da partida das monções. Descreve-a Estevam Leão Bourroul, um dos beneméritos fundadores desta casa ( o autor refere-se ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ) no seu curioso livro Hércules Florence, citando o testemunho de autoridades. Ouçamos uma delas, o Dr. Cesário Mota Junior: "Determinada a época da monção reiuna, o capitão-mor ordenava o recrutamento dos tripulantes; organizado em quadro, tinham estes autorização para tirar das lojas o que precisassem, até uma certa quantia. Junto ao porto, chamado geral, havia um vasto rancho no qual eram guardadas as canoas e batelões, sendo este de grande capacidade; alguns comportavam quinhentas arrobas de carga. Chegado o dia, afluia ao porto enorme multidão de povo. Os camaradas se dividiam em pilotos, sub-pilotos, proeiros, remadores ou cargueiros; destes muitos não inspiravam confiança pelo que eram conduzidos acorrentados para as canoas. O capitão-mor e todas as pessoas gradas da freguesia ali se achavam. O sacerdote também comparecia. Os remadores levantavam os ramos em forma de cruz, o padre revestido das sagradas insígnias procedia à benção da monção. Tiros, salvas, estrugiam os ares. Os navegantes entoavam uma canção tristemente monótona e as canoas se afastavam, deixando muitos corações de mãe a estalar de cuidados, muitos olhos rasos de lágrimas, muitos lábios a murmurarem orações a Virgem Mãe dos Homens pelo feliz e pronto regresso dos viajantes".

Por sua vez, o exímio poeta Vicente de Carvalho celebrou a Partida da Monção, poesia de que destacamos os seguintes fragmentos:

"Ei-las, as toscas naus de borda rastejante
Na flor das águas, naus de estreitos rios quietos;
Ei-las, prestes a abrir para o sertão distante,
Para assombros de glória, o seu voo insetos.

Ao largo enfim ! Clarins e buzinas atroam.
E as canoas, na luz da manhã cor de rosa.
Pairam por um momento em pleno rio; aproam
Para o sertão. E rompe a marcha vagarosa.

Longe, na solidão do campo undoso e verde,
O rio serpenteia. Em cada contorção
Mais se afasta. E a fugir, pouco a pouco se perde
No mejestoso, vago, infinito sertão...

O malogrado poeta Baptista Cepellos, em Os Bandeirantes, assim descreve a expedição:

"Abre-se como um lírio, a manhã vaporosa...
Aos poucos vão surgindo, em vago lineamento,
As montanhas, além, num fundo cor de rosa,
Que ourela a fímbria azul do claro firmamento.

Ei-los que vão partir: é chegado o momento,
E cada embarcação parece uma ave ansiosa,
Sacadindo a caricia amorável do vento
A vela que espaneja ufana e aventurosal

Ei-los que vão partir, os ousados paulistas
Rasgando nos sertões um sulco de bravura
E desfraldando no ar o pendão da conquista !

E serena, no céu, entre as névoas espessas,
Desce a luz da manhã, como a benção da Altura,
Nimbando-lhe de glória as altivas cabeças !"

 O cirurgião e deputado e o piano

Entre os antigos moradores de Porto Feliz conta-se o paulista Alvares Machado, hábil cirurgião e veemente parlamentar. Foi deputado geral em três legislaturas e presidentes do Rio Grande do Sul.
Bateu-se com denodo na campanha de maioridade. Sua filha única desposou-se com o viajante e cientista Hércules Florence, que deixou grande descendencia.

Não é sem interesse mencionar a entrada do primeiro piano na vila que era naquele tempo, acontecendo o evento registrado xistosamente por Alvares Machado e tal documento é relatado pelo historiador pernambucano Dr. Pereira da Costa em sua Encyclopediana Brasileira. Por ser original, reproduzirei essa página: "Ainda pelos anos de 1820 a condução de um piano para qualquer cidade do interior não era uma questão de nada fácil, tal a dificuldade dos meios de transporte. Por esse tempo, a vila de Porto Feliz, em São Paulo, foi dotada com um desses instrumentos, senão o primeiro que ali chegava, ao menos um dos poucos que passava a possuir. O dia da chegada do piano a Porto Feliz, ou por outra, o da sua entrada solene, foi um dia de verdadeira festa popular. Para dar uma idéia ligeira desse fato, basta a transcrição do seguinte e curioso escrito, pelo próprio punho do notável e espirituoso cirurgião Francisco Alvares Machado de Vasconcelos, nome assaz e respeitado: "No dia 2 de maio de (1820), terça-feira, pelas onze horas chegou a esta vila o forte piano. Já pela manhã o povo concorria em reboliço, e, transmalhado pelas ruas em que devia chegar, já se apuravam as paciências quando ali chegou um sifaia que anunciava a chegada. Deram-se as ordens, todos guardaram seus lugares, todos ficaram atentos. Apareceu o primeiro objeto. Era uma besta russa que vinha carregada com viveres e couro para abarracar o piano no caso de chuva; tudo era muito volumoso e pesado.
Avistou-se o desajeitado andor. Vinha carregado por trinta e oito escravos ( africanos de Guiné ), que vinham cantando, com duas bandeiras ornadas de flores. Repicaram os sinos e descarregaram-se as ronqueiras que foram respondidas pelo TICO e dois bombeiros que marchavam vagarosamente na retaguarda. Desceram o piano e por um instinto maquinal disseram os cargueiros a uma voz: "Chegou o piano" e o povo entusiasmado de alegria, repetiu: ''Chegou o piano, Chegou o piano ".
"Epoca memorável e que é digna de aniversário e por isso formamos este artigo para a memória dos vindouros nesta vila de nossa Senhora Mãe dos Homens de Porto Feliz. E por ser verdade assinamos nós três intendentes das novidades interessantes. Teixeira - Sousa-Vasconcelos".
Já lá se vão 111 anos, por coincidência completados no dia em que terminei estas linhas.

(*) Vicente Themudo Lessa - Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Vol XXX, 1931/1932, Gráfica Paulista 1935 - pp. 77-82.

Um ‘tosco’ soldado conta histórias do Brasil



Um ‘tosco’ soldado conta histórias do Brasil

Apontamentos de viagem de José Juzarte, agora reeditados, documentam os caminhos de uma Monção que cruzou o País em 1769

Por José Sebastião Witter

No Brasil estamos vivendo as antevésperas das comemorações do Descobrimento de nossa terra. Continuarão, em todos os níveis, as discussões das teses do acaso ao da intencionalidade desse achado português e tudo o que sucedeu com a conquista de nosso território. Neste novo episódio, tudo o que representou a saga dos Bandeirantes e as diferentes interpretações sobre a expansão da terra brasileira. Em épocas como estas, da celebração das datas, resultam muitas publicações. Entre inúmeras, algumas são de valor indiscutível. Entre elas está o Diário da Navegação, de Teotônio José Juzarte, sargento-mor, pouco letrado, que produziu um documento de grande valia para o conhecimento de nosso Brasil.
O esforço conjunto da Prefeitura do Município de Porto Feliz e do Centro de Memória da Unicamp permitiram a edição, que teve o apoio do museu das Monções e da Diretoria de Educação e Cultura da cidade portofelicense. Ao professor Jonas Soares de Souza coube a organização da obra. Ele, com seu entusiasmo de pesquisador, recuperou os originais dispersos e compôs uma nova edição, ressaltando o papel de seu autor, além de sua apresentação e a introdução de Afonso D’Escragnolle Taunay. Com iconografia primorosa no “Caderno de Ilustrações”, da página 113 e seguintes, o Diário nos traz a trajetória de uma Monção desde Araritaguaba – hoje Porto Feliz – até o forte do Guatemi, lá nas barrancas do Paraná.
Assim começa o relatório da viagem: “DIÁRIO DA NAVEGAÇÃO no Rio Tietê, Rio Grande Paraná, e Rio Guatemi em que se dá Relação de todas as coisas mais notáveis destes Rios, seu curso, sua distância, e de todos os mais Rios, que se encontram, Ilhas, perigos, e de tudo o acontecido neste Diário, pelo tempo de dois anos, e dois meses. Que principia em 10 de março de 1769.”
No princípio da obra, Juzarte faz uma descrição dos acontecimentos que precedem o embarque de uma expedição e os preparativos todos, feitos no povoado de Araritaguaba (Porto Feliz), nos dias que antecederam sua partida. São detalhados os formatos dos barcos, chamados “canoas”, além de tudo que nelas eram colocadas – desde animais até alimentos. Na seqüência, as bênçãos do pároco e a partida. (A Semana das Monções, em Porto Feliz, que está em sua 44ª edição, todos os anos reencena o episódio).
Depois dos comentários gerais e de ponderações sobre todos os perigos e estratégias para vencer os rios, Juzarte vai, a partir de 13 de abril, dia-a-dia noticiando o que se passou, desde Araratiguaba até Guatemi. Descrição detalhada e rica permite ao estudioso rever, com os olhos do sargento-mor, a região percorrida e ir conhecendo, cada passo do território por onde avançam os membros dessa grande aventura. Embora o Diário de Juzarte tenha tido várias outras edições, não sendo portanto um documento inédito, esta é uma versão que ressalta aquele que o escreveu e a destaca como obra independente.
Como nos informa com clareza Jonas Soares de Souza, Juzarte já fora publicado pela primeira vez no Tomo I dos Anais do Museu Paulista, em 1922. Depois, foi publicado na Revista do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo no seu volume 61 e mais uma vez por Taunay nos Relatos Monçoeiros, em 1953, pela Melhoramentos. Também é o organizador quem enfatiza ser esta edição a primeira em volume autônomo.
Talvez valesse a pena recuperar de Taunay esta observação: “... De todo olvidado estaria Teotônio José Juzarte não fora sua Relação, hoje incorporada à biblioteca do Museu Paulista, notas de viagem, toscas e rudes de soldado semi-analfabeto, mas cheias de interessantíssimos informes. Assim, a recomendação constante do capitão-general veio salvar-lhe a memória do esquecimento completo e torná-lo comparticipante daquele grupo de homens para quem a ‘nonomis morior’ do conceito horaciano traduz uma promessa consoladora até certo ponto.”
Completando eu lembraria que Juzarte se insere no conjunto de obras que lembram o nossos 500 anos de existência e o grupo da Comissão dos 500 anos de Porto Feliz o traz para o projeto maior em andamento – Do Tejo ao Tietê, que é a tentativa de discutir a continuidade ou não de expansão portuguesa nos termos propostos em 1500.
É mais um esforço de cidadãos que relembram, em 1999, o acontecido no século 18 e que tem muito a nos ensinar no limiar do terceiro milênio.

DIÁRIO DA NAVEGAÇÃO, de Teotônio José Juzarte. Unicamp, 122 págs., R$ 12,50.
José Sebastião Witter é professor da USP e diretor do Museu do Ipiranga.

O sertanismo e a fundação da cidade



O sertanismo e a fundação da cidade(*)




Durante os anos 1610‑1750, Itu foi principalmente um ponto de apoio e ligação na vasta rede de comunicações e aviamentos organizada para a preação dos índios, a busca do ouro, a cata das pedras preciosas e o abastecimento dos núcleos de mineração. Itu começou a ser fundada por um sertanista que decidira abandonar o bandeirismo pela agricultura. Ao fundar Utuguaçu (Cachoeira Grande, depois grafada simplesmente Ytu ou Itu), em 1610, Domingos Fernandes estava criando um núcleo populacional, com suas roças e criações, que foi um ponto de apoio e ligação na vasta rede de rios, trilhos e caminhos (ou sítios, arraiais, freguesias, povoados, vilas e cidades) que se criaram com a expansão do povoamento do planalto paulista, das regiões de Minas Gerais, Goias, Mato Grosso, Paraná e de todo o sul do país. Primeiro, durante o século XVII, foram as bandeiras formadas para prear índios ou buscar metais e pedras preciosas. Depois, durante a primeira metade do século XVIII, foram as monções, formadas para comerciar nos núcleos de mineração em Cuiabá, Goiás e outras partes da Colônia.
Simultaneamente, foi‑se criando uma sociedade peculiar na área de Itu. A despeito da predominância dos negócios dos sertanistas, bandeirantes ou comerciantes, em suas idas e vindas por longos espaços e tempos, formaram‑se roças e criações no lugar. Fixaram‑se famílias e gerações, meio ligadas aos movimentos das bandeiras e monções, meio ligadas à terra, à casa, às roças e criações. Mesclaram‑se os portugueses e os índios, escravos e forros, mestiços ou não, nas bandeiras, monções, roças ou criações. Assim, enquanto se estendia a rede de povoamento e negócios, pelas longas lonjuras, formava­-se a base de uma sociedade peculiar, a sociedade caipira. Foi a sociedade caipira que se formou em Itu, ao longo dos anos 1610‑1750, à medida que o lugar se articulava e rearticulava na vasta rede de caminhos, trilhos, estradas, rios, sítios, arraiais, freguesias, povoados, vilas e cidades que os portugueses, os índios, mamelucos, negros e mulatos iam formando perto, longe e distante.
Essas características básicas da sociedade formada não só em Itu mas no planalto paulista, nos séculos XVII e XVIII, estão anotadas ou analisadas nos estudos realizados por Afonso E. Taunay, Alcântara Machado, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Francisco Nardy Filho e outros. As observações feitas por alguns desses autores mostram muito bem o contexto histórico, isto é, econômico, geográfico, social e cultural, em que se formou a sociedade de Itu, como parte da imensa rede de vias e. lugares que assinalaram o povoamento do sertão.
No começo, a preação dos índios e a busca de metais e pedras preciosas foram as preocupações predominantes. "Iniciada a colonização, é por São Paulo que se farão as primeiras penetrações do continente: para o altiplano central (Minas Gerais), para a grande depressão interior do continente (bacia do Paraguai), para os campos do Sul. Penetração exploradora e preadora de índios, a principio; prospectora de minas e povoadora afinal" ( 1 )
"Durante a maior parte do século XVII, as terras a oeste do rio Paraná foram consideradas grandes reservatórios de índios domesticados ou brabos, que os paulistas iam prear para as suas lavouras" (2).
Depois, pouco a pouco, decai o bandeirismo e expandem‑se as atividades de comércio, as monções, destinadas ao aviamento dos núcleos populacionais formados em tomo das atividades de mineração. "Nas frotas de comércio ‑ frotas que chegaram a abranger, por vezes, trezentas ou quatrocentas canoas ‑ ia o bastante para que não morressem de fome os moradores de Cuiabá, e depois os de Vila Bela e de outras localidades nascidas da expansão cuiabanas e à medida em que se empobreciam as antigas jazidas. Os mantimentos que entre eles se cultivavam e os animais domésticos que se criavam, serviam unicamente para impedir que desfalecese os trabalhos de mineração e para que essa fonte de riqueza não entrasse em fatal colapso" ( 3 )
São vários e muitos os acontecimentos da vida de Itu relativos às idas‑e-­vindas das pessoas e mercadorias ligadas às bandeiras e às monções. Em 1635, "Tomé Fernandes da Costa e seu irmão Fernandes Cabral, filhos de Domingos Fernandes, ainda jovens, filhos‑família, fazem uma entrada no sertão aprisionando muitos índios, que são conduzidos para Utu‑guaçu" (4) .
Em 1678, "parte de Itu, embarcando no porto de Pirapitingui, uma monção formada por seis canoas grandes com destino ao Paraguay. . . " ( 5 ).
No dia 11 de fevereiro de 1698 chegou a Itu o governador Artur de Sá Menezes, "procedendo investigações referentes às mi­nas", além de outras providências, e "encontrou o povo em preparativos de uma frota de gente que partia para as minas Itaverava" ( 6 ) .Em 1719 "os irmãos João e Lourenço Leme, acompanhados de seus escravos e índios seguem para Cuiabá" ( 7 ) . Em maio de 1725 " chegam a Itu 15 índios conduzindo duas peças de artilharias para Cuia­bá" ( 8 ) . Em janeiro de 1728, "em combate com os índios payaguás são mortos os ituanos Miguel Antunes Maciel e Antonio Antunes Lobo, ficando prisioneiros um filho e um escravo de Antunes"  ( 9 ). Em 1733 partiu de Itu uma "grande expedição" que "ia fazer guerra ao gentio payaguá", expedição essa formada por 842 soldados, três batelões e 108 canoas (10). Foram muitas as bandeiras e monções que passaram por Itu ou partiram desse lugar, em busca de índios, mine­rais e pedras preciosas; ou para comerciar com os habitantes vivendo nos núcleos de mineração“. As monções deram também notável incremento ao progresso de Itu; partiram as monções de Araritaguaba ( Porto Feliz ) , porém, era em Itu que elas se organizavam. Itu era o empório em que os que iam partir se abasteciam do que lhes era necessário ‑ roupas, fazendas, ferramentas e outros artigos e gêneros " ( 11 ).
Esse foi o contexto no qual, pouco a pouco, formou‑se uma sociedade de tipo especial. Ao lado das atividades econômicas ligadas às bandeiras e às monções, desenvolveu‑se uma economia voltada para a subsistência de famílias e bairros rurais, apoiadas em suas roças e criações. Assimilaram‑se técnicas e soluções indígenas; ou reformularam‑se as técnicas e soluções trazidas pelos portugueses, no confronto com a cultura indígena. "A sociedade constituída no planalto da capitania de Martim Afonso manteve‑se por longo tempo ainda, numa situação de instabilidade ou de imaturidade, que deixa margem ao maior intercurso dos adventícios com a população nativa. Sua vocação estaria no caminho, que convida ao movimento; não na grande propriedade rural, que cria indivíduos sedentários"  ( 12 ).
"É inevitável que nesse processo de adaptação, o indígena se torne seu principal iniciador e guia. Ao contato dele, os colonos, atraídos para um sertão cheio de promessas, abandonam, ao cabo, todas as comodidades da vida civilizada. O simples recurso às essas vias de comunicação abertas pelos naturais do país já exige uma penosa aprendizagem que servirá, por si só, para reagir sobre os hábitos do europeu e de seus descendentes mais próximos. A capacidade de resistir longamente à fome, à sede, ao cansaço; o senso topográfico levado a extremos; a familiaridade quase instintiva com a natureza agreste, sobretudo com seus produtos medicinais ou comestíveis, são algumas das imposições feitas aos caminhantes nessas veredas estreitas e rudimentares. Delas aprende o sertanista a abandonar o uso de calçados, a caminhar em "fila india", a só contar com as próprias forças durante o trajeto. Salvo na proximidade imediata das maiores povoações, nenhum progresso fundamental será possível antes que se generalize o emprego de cavalares e muares para extensos percursos. Nada indica que os trabalhos de reparo e conservação das estradas mais importantes, trabalhos feitos, a princípio, de mão comum pelos moradores, e quase só até onde chega o poder efetivo das câmaras municipais, pudesse modificar apreciavelmente a fisionomia e o caráter próprio desses caminhos"  ( 13 ) .


1-Caio Prado Junior, Formação do Brasil Contemporâneo, 5' edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1975, p. 61.
2-Sérgio Buarque de Holanda, Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1957, pp. 165‑6.            
3-Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., p. 174.
4-Francisco Nardy Filho, A cidade de Itu, 4 vols., São Paulo, Escolas Profissionais Salesianas, 1928, 1930, 1950 e 1951, vol. 4, p. 11.
5-Idem, ibidem, p. 13.
6-Idem, ibidem, p. 18.
7-Idem, ibidem, p. 26.
8-Idem, ibidem, p. 31.
9-Idem, ibidem, p. 33.
10-Idem, ibidem, p. 40.
11-Francisco Nardy Filho, op. cit. e “Evolução da cidade de Itu”, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 de abril de 1957.
12-Sérgio Buarque de Holanda. Monções, Rio de Janeiro, Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1945, p. 12.
13-Idem, ibidem, pp. 14‑15.

(*) OBS - : Trecho do livro “Uma Cidade Antiga”, Itu , de Octavio Ianni, páginas 17,18, 19 e 20

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Lateral, rua André Rocha, da igreja matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens de Porto Feliz, anos 20. Foto do IPHAN

Igreja matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens de Porto Feliz, anos 20. Ela foi reformada nos anos 70 e totalmente descaracterizada. Foto do IPHAN

domingo, 2 de julho de 2017

Colonos Belgas em Porto Feliz

COLONOS BELGAS EM PORTO FELIZ

Colonos Belgas em Porto Feliz (*)

A rápida expansão da economia cafeeira para o chamado “Oeste Paulista”, praticamente despovoado no século passado, ocorreu em um momento no qual estavam reduzidas as possibilidades de continuidade das relações escravistas de produção. A demanda de mão de obra era muito maior que a oferta de escravos, e a permanência de escravidão impunha limites à utilização de outras fontes de trabalhadores.  A existência do preconceito contra o braço nacional, que, por sua vez, não se adaptava facilmente à condição de trabalhador

assalariado de forma disciplinada, dificultava a sua utilização. A preferência dos fazendeiros do ‘’Oeste” pelo trabalhador estrangeiro e a existência de um excesso de população liberada pela crise que assolava vários países da Europa, especialmente a Itália, favoreceram a implantação de um fluxo imigratório para a então Província de São Paulo. Pouco a pouco os imigrantes estrangeiros sob formas diversas como: regime de parceria, imigração espontânea ou subvencionada...) substituiram o braço escravo nas grandes lavouras.

Enquanto nas Províncias do Sul do país predominou o sistema de estabelecimento dos imigrantes em Colônias, como pequenos proprietários, em São Paulo a expansão de cafeicultura reduziu a disponibilidade de terras para esse tipo de fixação de estrangeiros. As limitações das Colonias particulares, que surgiram em diversas fazendas (como a de Ibicaba, do senador Vergueiro, no município de Limeira), e o impasse surgido com o regime de parceria, resultaram na criação de núcleos coloniais oficiais pelo Estado. Sua existência, porém, atendia direta ou indiretamente aos interesses da grande lavoura. Funcionavam como fornecedores de

generos a preços baixas, como focos de atração e fixação de imigrantes, ou então como reservas de mão de obra para seus periodos de maior atividade.

Todas as preocupações com a introdução de trabalhadores visaram completar ou formar quadros de força de trabalho para as lavouras de café. As regiões marginalizadas no surto cafeeiro, como foi o caso de Porto Feliz, não foram beneficiadas pelo fluxo imigratório da segunda metade do século XIX. Nesse período, a força de trabalho disponível naquele município resumia se a umas poucas centenas de escravos.

Entre 1790 e 1830 Porto Feliz, juntamente com Itu e Campinas, controlava a produção açucareira da Capitania de São Paulo. Era uma zona das mais povoadas, e o número de escravos pouco inferior ao de Itu e Campinas.

Depois de favorecido pela conjuntura do final do século XVIII, ocasião em que renasceram os engenhos paulistas, o açúcar brasileiro enfrentou uma fase de recessão, a partir de 1830, que teve suas origens no aumento da concorrência nos mercados internacionais.

Em consequência dessa fase de recesso, com o passar dos anos a produção açucareira de Porto Feliz foi perdendo importância, um grande número de engenhos foram desativados e centenas de escravos vendidos.

Augusto Emílio Zaluar ficou decepcionado com o atraso da antiga Araritaguaba quando por ela passou em 1860, e escreveu no seu livro de viagens Peregrinação pela Província de São Paulo: “O seu comércio é muito insignificante, pois apenas existem aqui algumas tabernas, e poucas lojas de fazendas e armazéns. A população deste distrito, que já foi de 10 a 11.000 almas, está hoje reduzida a 7000, sendo 5.000 Iivres e 2.000 escravas”.

Na década de 1870 começaram a ser criados no Brasil os chamados Engenhos Centrais, modernas fábricas de açúcar. Um grupo de fazendeiros de Porto Feliz resolveu também construir um Engenho Central, numa tentativa de superar os problemas econômicos do município, e em 1876 organizou a Companhia Açucareira de Porto Feliz. No contrato que a Companhia assinou com o Governo Imperial para a garantia de juros, então em vigor para capitais empregados em estabelecimentos desse gênero, ficava proibida a utilização do braço

escravo, ao mesmo tempo que facilitava a aquisição de terrenos devolutos para posterior revenda a imigrantes europeus.

Finalmente, com uma grande festa foi inaugurado, a 28 de outubro de 1878, o Engenho Central de Porto Feliz, o primeiro construído na Província de São Paulo e o terceiro de todo o Brasil.

Entretanto, nada de providencias concretas para a introdução de trabalhadores na região. Criado o Engenho Central, o cultivo do canavial e a fabricação do açúcar formaram dois setores separados, com a aplicação de medicas ‘’modernizantes” apenas no segundo setor. A deficiência de braços e de novas técnicas na lavoura , a deficiência dos meios de transporte de cana, e o desinteresse dos plantadores em assumir compromissos de fornecimento, geraram uma série de crises no abastecimento de matéria prima.

Núcleo colonial “Rodrigo Silva”

Para colaborar na solução da crise de fornecimento da cana de açúcar, recorreu se então, passado quase um decênio da inauguração do Engenho Central, às experiências já utilizadas na cafeicultura: aos núcleos coloniais. Assim, nas zonas açucareiras de Porto Feliz e Lorena, onde também foi fundada uma colônia para atender às necessidades de um Engenho Central, os núcleos coloniais oficiais poderiam atrair e fixar trabalhadores, que se transformariam em pequenos proprietários e assegurariam safras fixas de cana aos respectivos

Engenhos Centrais.

Nessa época, a Sociedade Central de Imigração e outros dos interessados na transferência de mão de obra para o Brasil desenvolviam intensa propaganda na Europa. Na Bélgica surgiram muitos candidatos, entre eles o padre Jean Baptiste VanEsse, atraído com a possibilidade dos lucros que certamente proporcionariam a formação de uma colônia belga no Novo Mundo.

Para a instalação do núcleo colonial em Porto Feliz, o governo havia adquirido algumas propriedades nas imediações da cidade. Nessa altura dos acontecimentos VanEsse já conversara com o Ministro da Agricultura, na ocasião Rodrigo Silva, ao qual fora apresentado por Edouard de Grelle, Ministro da 8élgica no Rio de Janeiro. Levaram o padre belga para conhecer as terras de Porto Feliz e ele entusiasmou se com a fertilidade do terreno, considerado proprio para o cultivo da cana, cereais, café e tabaco. Depois da visita, VanEsse

escreveu à Diretoria da Sociedade Central de Imigração uma carta, datada de 13 de janeiro de 1888, dando pormenores do seu projeto, no qual seriam investidos 50.000 francos belgas.

Autorizado pelo Aviso nº 111, de 16 de novembro de 1887, do Ministério da Agricultura, o Inspetor Geral das Terras e Colonização assinou, no dia seguinte, um minucioso contrato com o padre VanEsse . De acordo com o contrato seriam introduzidas 50 familias na colonia, sendo 45 familias necessariamente de agricultores, a começar do inicio de maio de 18B8 até 31 de maio de 1889. Cada familia obrigava se a trazer um capital minimo de 1.000 francos, mais os utensilios domésticos e implementos agricolas. As despesas com o transporte dos colonos e de suas bagagens ficavam por conta do governo.

O núcleo colonial ficaria sujeito à jurisdição civil, segundo as leis e disposições em vigor no Império, e o padre VanEsse, na qualidade de “diretor espiritual”, seria um representante remunerado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Publicas.

Conforme o oficio de 19 de fevereiro de 1888, enviado por E. de Grell e a o Principe Chimay, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, o Ministro Rodrigo Silva previa um brilhante futuro da Colônia de Porto Feliz, cuja criação testemunhava a simpatia dos brasileiros pelos trabalhadores belgas.

Para atrair seus colonos na Bélgica, VanEsse redigiu um opúsculo, no qual prometia grandes vantagens: os lotes de 20 a 30 hectares custariam em média 1.400 francos e poderiam ser totalmente pagos pelos colonos no prazo máximo de sete anos. Além disso, como o núcleo era fundado com o objetivo de alimentar o Engenho Central, toda a produção de cana tinha comprador certo.

O opúsculo esclarecia que, como as casas construídas pelo governo eram precárias, seria preferível transportar da Bélgica casas pré fabricadas com paredes, divisões e teto de ferro.

Aos colonos VanEsse sugeria a organizado de uma cooperativa. Através dela o excedente da produção seria colocado no mercado, a ela caberia a compra de alimentos e ferramentas, e mediante uma pequena contribuição mensal ela providenciaria assistência médica e medicamentos as famílias dos colonos. A cooperativa poderia depois se ligar a outras do mesmo gênero, formadas em futuras colônias belgas.

As primeiras 25 famílias chegaram ao Brasil a bordo do navio Hipparchus. Do porto de Santos partiam de trem com destino a Itu ou Sorocaba, de onde alcançariam Porto Feliz a pé ou em carro de bois. Em fins de maio de 1888 requereram os seus lotes os seguintes colonos: Alexandre Libois, Edouard Leroy, Vital Kestemond, Felix Wayens, J.B. Vanerwyck, J.J. Descolte, Juies Bertz, François Aerre, François Labenne, Ferdinand Boudart, Auguste Dubois, Hubert Dumont, Augustine Detry, Gustave Dumont, Genius Despontin, Edmonde Taupe, Emile Gérard Ballion, Adelin Péters e Auguste de Becquerot.

O estabelecimento recebeu a denominação de Núcleo Colônial “Rodrigo Silva”, em homenagem ao antigo Ministro da Agricultura. Ocupava uma área de 1.600 hectares, que custaram 23:000S000 réis aos cofres públicos. De acordo com um artigo publicado no Etele du Sud (jornal escrito em francês, dirigido por Charles Morel e impresso no Rio de Janeiro,foram projetada para abrigar 1.000 colonos belgas, e esperava se que constituisse em  estabelecimento modelo, uma espécie de escola pratica de agricultura, de centro de difusão de novas técnicas de cultivo e de novas lavouras. A Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro considerava o empreendimento “louvavel” não apenas como auxilio para a agricultura, mas também do ponto de vista de sua influência em todas as esferas sociais”, com a conseqüentes facilidades para o desenvolvimento da pequena propriedade, introduzindo no Brasil elementos da “laboriosa raça belga.”

Meses depois, o Diário Popular de 31 de janeiro de 1889, sob o título ‘’Colônia Malsinada”, dava “conta das péssimas condições em que se encontrava a projeta escola prática de agricultura. A notícia falava em “falta de direção experimentada’’ criticava a intervenção paternal do Governo e a direção clerical, que revelava ‘’tendências absorventes e autoritárias’’. Informava ainda que os imigrantes estavam vendendo ferramentas agrícolas por falta de dinheiro para a compra de alimentos. O Senador Taunay comentou esse artigo na sessão de 7 de fevereiro de 1889 da Diretoria da Sociedade Central de Imigração.

As mesmas críticas do Diário Popular foram repetidas por Alfred Marc em Le Brésil: Excursíon dutravers ses 20 Provinces publicado em 1898. Surgiram protestos contra a direção do núcleo colonial. Entretanto, VanEsse não desistiu da empresa. A 4 de maio de 1889 remete um ofício ao Barão George Reusens, então Ministro da Legação belga do Rio de Janeiro, solicitando sua intervenção para a prorrogação do prazo do contrato, que o obrigava a introduzir as famílias restantes, já engajadas na 8élgica, até o dia 31 daquele mês, e para as quais o Cônsul do Brasil em Anvers não concedia a necessária autorização para embarque, No mesmo ofício ele se defendia das acusações apontando a existência de inúmeros inimigos, que não perdiam oportunidade para calunia.

O Consul da Bélgica em São Paulo, Pety de Thozée, era um dos críticos de VanEsse. Lembrava que o padre tivera a brilhante idéia de vender aos colonos casas de ferro fabricadas em Charleroi, inabitáveis em clima quente, em vez de construir moradias com material local. Acusava VanEsse de ter comprado a fazenda “Canguera”: nas proximidades da Colônia, por preço exagerado e para uso pessoal.

Pouco a pouco os colonos debandaram. Uns voltaram para a Bélgica, outros passaram para Porto Feliz e cidades vizinhas e poucos ficaram na Colônia.

A tutela do Governo somente foi retirada pelo Decreto número 225 A, de 30 de dezembro de 1893, que emancipou também outros sete núcleos oficiais instalados em outros municípios.

Os belgas foram substituídos por brasileiros e imigrantes de outras nacionalidades, como demonstrou o recenseamento realizado em 1893: a população de 271 habitantes, todos agricultores, era formada por 150 brasileiros, 62 belgas, 39 italianos, 16 espanhóis, 1 francês, 1 alemão, I norte americano e 1 “africano”.

Das 52 moradias, avaliadas em 13:420$000 réis, 50 ainda eram casas provisórias. O valor da produção do Núcleo Colonial “Rodrigo Silva” nesse ano atingiu 46:068$000 reis, no qual o milho participava com mais de 5096 registrando se a existência de dois “engenhos de-cana” para o seu beneficiamento. A produção de cana não ultrapassou os 60 carros (cada carro equivalia aproximadamente a 1.500 quilos), avaliados em I:800$000 réis. Os colonos, quando plantavam cana, achavam mais produtivo “fazer com ela aguardente, do que puxá la uma longa distancia, empilha la sobre vagões e esperar em seguida com paciência longos meses para serem pagos, estando o Engenho cronicamente sem vintêm”, como escreveu Frederic Sawyer no seu estudo sobre a industria açucareira em São Paulo, publicado em 1905.

O fracasso da experiência com colonos belgas em Porto Feliz deve ser atribuido à deficiência do sistema de recrutamento desses imigrantes. A própria diretoria da Sociedade Central de Imigração reconhecia que os belgas não estavam dando prova como trabalhadores assalariados nas fazendas e como pequenos proprietários, porque vinham da Europa com muitas esperanças, fundadas em promessas exageradas e de difícil realização, pelo menos na fase inicial. E a maioria deles era formada por operários das industrias e minas, que não tinham nenhuma experiência anterior com o trabalho do campo.

Além desse problema fundamental devemos lembrar ausencia de uma liderança efetiva; a pressão exercida por alguns dos grandes proprietários, que certamente não viam com bons olhos o estabelecimento; as reduzidas dimensões do mercado consumidor para os produtos da colonia e as constantes crises do próprio Engenho Central que motivou a sua fundação.

Depois de sua desastrosa atividade como diretor do Núcleo Colonial Rodrigo Silva’’, o padre VanEsse exerceu as funções de vigário em várias cidade do interior: Cajuru, Matão, São Carlos, Santa Barbara do Rio Pardo e depois em Curitiba. Terminou a sua vida como professor do Seminário Arquidiocesano de São Paulo.

(*) Jonas Soares de Souza - Jornal Cruzeiro do Sul – Sorocaba - 3 de setembro de 1978 p.20