terça-feira, 19 de abril de 2016



Porto Feliz: Origem e fundação



Segundo contam as crônicas, a capela de Nossa Senhora da Penha de Araritaguaba, origem da atual cidade de Porto Feliz, foi fundada no correr do ano de 1.721 por Antonio Cardoso Pimentel e Antonio Aranha Sardinha, em terra da sesmaria deste ultimo. O que consta, porem, do Livro Tombo da Igreja Matriz de Porto Feliz leva me a crer não haver Antonio Sardinha tornado parte alguma nessa fundação.
"... ereção e instituição da Capela de Nossa Senhora da Penha de Araritaguaba edificada e feita ao pé do rio Tietê, vizinho do sitio de Antonio Cardoso Pimentel já falecido o qual a fez e se benzeu na era de 1.700 anos pelo que dizem os mesmos caseiros..."
Ai aparece como único fundador Antonio Cardoso Pimentel, sendo a data de fundação 1.700 e não 1.721. Haja visto terem sido isso escrito nesse Livro Tombo pelo segundo vigário de Araritaguaba, padre Francisco de Campos, em junho de 1.747, de acordo com o que ouvira de pessoas que assistiram a fundação dessa capela. Tanto no termo de doação do patrimônio, como em outros documentos constantes desse Livro Tombo e referentes a essa fundação, não aparece o nome de Antonio Sardinha.
O padre Francisco de Campos, ituano, antes de, em 5 de junho de 1.717, haver tomado posse do cargo de vigário de Araritaguaba, já ali residia, desde há muitos anos, em companhia de seu irmão padre Felipe de Campos Bicudo, também ituano, e primeiro vigário de Araritaguaba, cuja posse se dera em 9 de março de 1.728. Devia, pois, o padre Francisco de Campos estar muito bem informado quanto a essa fundação, e, se não menciona o nome de Aranha Sardinha, é porque este parte alguma teve nessa fundação.
Tendo Antonio Cardoso, instituidor e protetor dessa capela, falecido em Itu no correr do ano de 1.721, foi em substituição nomeado seu filho José Cardoso Pimentel para protetor. Quando este seguiu para Cuiabá, em cujo caminho pereceu nas mãos dos índios paiaguás, foi nomeado em seu lugar Cristovão Borges, casado com uma neta do fundador. Ora, se Aranha Sardinha houvesse sido co fundador dessa capela, caberia a ele, por morte de Cardoso Pimentel, o titulo de instituidor e protetor, o que não aconteceu.
Aranha Sardinha obteve a sua sesmaria de Araritaguaba por carta de 5 de fevereiro de 1.728, cuja confirmação data de 18 de agosto de 1.732. Portanto, em 1.721 não possuía ainda a sesmaria em cujas terras foi fundada a capela. Casou se ele em Itu, onde residiu e de onde creio era natural, em 1.721, com Inês Dias de Alvarenga, filha de João Gomes de Escobar e de Joana de Godói Bicudo. Ora, se até a data do casamento residia em Itu, somente depois de 1.724 e que se transferiu para as terras da capela de Araritaguaba, onde se abriu lavouras e alcançou a sesmaria.
Como se vê, Aranha Sardinha não foi co fundador da capela de Nossa Senhora da Penha de Araritaguaba, como contam as crônicas, mas sim um dos primeiros povoadores das terras dessa capela.

(*) F. Nardy Filho
Praça Matriz 1936



Porto Feliz: antiguidade do porto de Araritaguaba



Posto que date de 1.720 a ereção da Capela de Nossa Senhora da Penha, à margem esquerda do rio Tietê, no local denominado Araritaguaba, capela erguida pela piedade e devoção de Antonio Aranha Sardinha e Antonio Cardoso Pimentel, antes dessa data era já, o porto de Araritaguaba, conhecido e aproveitado pelos valorosos sertanistas paulistas em suas viagens pelo sertão brasileiro.
Em 1.628, ao fazer Dom Luiz de Céspedes Xeria, nomeado capitão-general do Paraguai, a sua viagem do Rio de Janeiro à Ciudad Real de Guairá (no Paraguai), foi daí, dessas barrancas de Araritaguaba que ele iniciou a sua viagem fluvial; e isto afirmamos tendo à vista o seu mapa ou roteiro, o local que nele coloca o seu ponto de partida no rio Tietê, considerando para tal afirmativa o ponto em que marca esse porto e os rios e ribeirões assinalados nas proximidades aquém e além desse local.
Mais de um mês ficou Dom Céspedes Xeria nesse porto, ao qual dera o nome de Nossa Senhora de Atocha, levando todo esse tempo em construir canoas e em outros preparativos necessários para a sua longa viagem...
O fato de ir Dom Luiz de Céspedes a procura desse porto para a sua viagem ao Paraguai, nos induz a crer que essa rota era já conhecida e que em São Paulo de Piratininga lhe fora indicada e isto nos leva a certeza que esse porto além de conhecido era, também, aproveitado pelas primeiras expedições dos paulistas que, por via fluvial, se internavam pelo sertão e das quais nos falam os antigos cronistas...
Pelo que acabamos de expor, vê-se que muito e muito antes do porto de Araritaguaba se tornar célebre pelas grandes expedições monçoeiras, que dali partiram para a conquista do Paraguai e das minas de Cuiabá, era já conhecido e aproveitado desde o começo da era seiscentista, e, talvez, mesmo antes pelos sertanistas paulistas. Também o porto de Pirapitingui, de que nos falam as antigas crônicas, outro não era senão o de Araritaguaba; e se assim não fosse, não iriam Aranha Sardinha e Cardoso Pimentel, havendo tanta terra nas proximidades dos povoados, pedir suas sesmarias em lugar tão deserto e desconhecido.
Conta-nos Moreira Pinto que Araritaguaba fora antiga aldeia de índios guayaná; pode ser, pois pouco acima, às margens do mesmo rio, nas proximidades do lugar onde hoje se ergue a cidade de Salto, existiu a aldeia de Paranaytu de índios dessa mesma nação. (1)

Caminhos de penetração da capitania de São Paulo

Também, em 1.629, o grande sertanista André Fernandes iria conduzir, sob sua guarda, para o Paraguai, pelo mesmo porto de Araritaguaba, D. Vitória de Sá, senhora fluminense e esposa de Céspedes Xeria. Também desceram, no século XVII, o rio Tietê, Francisco Pedroso Xavier (para invadir e assolar, em 1.675 e 1.676, reduções espanholas), Brás Mendes Pais, que se encontrava em Mato Grosso, em 1.682, com seu irmão Pedro Domingos Pais e Pedro Leme da Silva, o Torto; Manuel de Frias Taveira, que fez uma incursão contra os índios do Itati, Gaspar de Godói Colaço que devassou, em 1.698, a região da Vacaria de Mato Grosso, onde já havia estado anteriormente, em 1.676, com Pedroso Xavier; Amaro Fernandes Gauto, partícipante da expedição de Godói Colaço, de 1.698, também sobre Vacaria de Mato Grosso e muitos outros que a história não conseguiu registrar.
Essas viagens do século XVII e das duas primeiras décadas do século seguinte eram penosas e cheias de riscos e dificuldades. Os paulistas embarcavam no rio Tietê, nas imediações de Itu ( Porto Feliz ), desciam o Anhembi ( rio Tiete ) e depois o Paraná até as vizinhanças de Sete Quedas, onde adentravam uns, rumo ao Sul, galgando a Serra do Maracaju para alcançarem o Guairá; outros marchavam para Oeste, pelo vale do Apa ou Piraí, em busca do Itati, ou, então, como terceira alternativa, tomavam direção NO para descerem, desde suas cabeceiras, o Mbotetéu (ou Miranda).
Pelos idos de 1.685, o sorocabano Paschoal Moreira Cabral Leme, o futuro descobridor das minas de Cuiabá, instalou-se, com sua comitiva, à margem do Mbotetéu, depois Miranda, no sul de Mato Grosso, onde os paulistas expandiram os seus domínios pelos campos da Vacaria, margens do Iguatemy e terras da Serra do Maracaju. Paschoal Moreira Cabral, numa dessas investidas contra os índios acabou encontrando, casualmente, em 1.718, nas margens do Coxipó-Mirim, mostras de ouro. Diante do promissor achado, os bandeirantes fizeram pesquisas mineradoras, com o auxílio de João Antunes Maciel e outros, até serem atacados pelos índios. Todavia, quando escasseavam as esperanças e toda a expedição sofria o risco de extermínio, apareceu, inesperadamente, a bandeira salvadora de Fernando Dias Falcão. Assim, como escreveu Capistrano de Abreu, Sem serem procuradas apareceram as minas de Cuiabá (...) as notícias (...) levadas ao povoado, agitaram a população e levianamente se lançou à terrível jornada que começava no Tietê ( porto de Araritaguaba-Porto Feliz ) e prosseguia pelo Paraná...(2)
(1) Francisco Nardy Filho - O Estado de São Paulo - 25 de outubro de 1.940, pg. 6 (Licença USP-SP em 1995)
(2) Anais do Museu Paulista, tomo XXXI, 1.982, artigo Caminhos de Penetração da Capitania de São Paulo, Paulo Pereira dos Reis, páginas 304 e 306.
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Santa Casa de Misericórdia – A Ata de instalação (*)



   Aos doze dias do mes de Julho do anno de 1.908, ás onze horas da manhã, na sala das sessões da Santa Casa de Misericordia de Porto Feliz, presentes o sr, José Esmedio de Paes Almeida, vice-provedor em exercício do provedor e mais  os sócios dr Draco de Alburqueque, dr. Christovão da Gama, José Teixeira da Fonseca, Djalma Honorato de Arruda, Djalma Pires, professor Roque Plínio de Carvalho, Tristão Pires de Almeida, Padre José L. Rodrigues, Francisco Mauricio de Oliveira, José Ottoni de Sampaio, Pedro Motta, Eugenio Motta, José Mauricio de Oliveira, Aquilles Jorge de Oliveira, Antonio Pimenta Junior, Mathias Fernandes de Camargo, Luiz de Carvalho Filho, Euchario Mauricio de Oliveira, secretario da associação, pelo mesmo provedor em exercicio foi dito que tendo sido concluidos os trabalhos de adptação do predio e se achado o mesmo provido de tudo necessario para o funcionamento da Santa Casa, bem como satisfeitas as naturaes exigencias para esse fim declarava installada a Santa Casa de Misericordia de Porto Feliz cuja direcção clínica ficava a cargo do dr Christovão da Gama que, que sócio fundador, gratuitamente tomará a esse cargo,  sendo que o serviço fharmaceutico  ficaria a cargo do fharmaceutico Adolpho Brand, estabelecido nesta cidade, havendo ainda imcumbidos do serviço das enfermarias dois enfermeiros  adrede contractados. Disse mais o provedor em exercicio que, de accordo com o estabelecido nos estatutos devia ser eleita nova directoria para a Santa Casa de Misericordia, sendo então eleitos para provedor, José Esmedio Paes de Almeida, vice provedor, Padre José L. Rodrigues, para mordomos José Teixeira da Fonseca, José Antonio Vieira, Mathias Fernandes de Camargo, Francisco Mauricio, Tristão Pires, Pedro Motta, Pimenta Junior, Djalma Pires, Luiz de Carvalho Filho, Levindo Pires, Djalma Arruda, para thesoureiro Joaquim Agostinho Torres e para secretario Euchario Mauricio de Oliveira, sendo os dois últimos reeleitos. Pelo socio Dr Draco de Albuquerque foi proposto e aprovado que se lançasse nesta acta um voto de louvor ao sr José Esmedio Paes de Almeida pelo modo dedicado com que desempenhou as funções do que foi imcumbido desde a iniciação dos trabalhos para a fundação da Santa Casa até a sua installação. Pelo sr José Esmedio Paes de Almeida foi dito que agradecia este voto de louvor, e propunha identica manifestação ao dr Draco de Albuquerque, que foi um seguro auxiliar seu no desempenho dessa missão, dedicando-se igualmente a mesma cauza, sendo tudo approvado. E como mais nada houvesse a tratar foi encerrada a sessão da qual eu, Euchario Mauricio de Oliveira, secretario lavro esta acta que vai por todos assignada.

(*) Almanach de Porto Feliz – 1909 - Paschoalino Verdi e B. Ferraz Gomide


A irmandade de São Benedito em Porto Feliz

Há registros á partir de 05/08/1898, documentos que provam que a Irmandade é bem antiga. Segundo estes documentos, essa entidade tem no mínimo, 195 anos de existência. No ano de 1818, no livro tombo pertencente à paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, aparecem algumas determinações a respeito do sepultamento de membros pertencentes a Irmandade de São Benedito, que na época deveria ser realizado dentro da igreja Matriz, no corredor direito. 
No ano de 1873, o Almanaque da Província do Estado de São Paulo, aponta os nomes dos responsáveis pela irmandade em nossa cidade:
Juiz: José Correa de Toledo;
Secretário: José Cardoso;
Procurador: José de Lara Lopes;
Tesoureiro: Bernardino Rodrigues Vieira, e mais doze irmãos de mesa.
No ano de 1896, a Câmara regulamenta o sepultamento das pessoas no cemitério da Irmandade de São Benedito (que ficava  anexo ao cemitério velho, mais precisamente onde hoje se encontra o velório municipal.

A festa de São Benedito

A festa de São Benedito é um dos maiores acontecimentos religiosos culturais e sociais dentro do calendário da devoção popular brasileira.
Influenciada pelo folclore africano, a festa é acompanhada por grupos de congadas e presidida por um Rei e uma Rainha, acompanhados de uma corte composta de Juízes de Vara e Ramalhete, Capitão do Mastro, Tenente da Coroa e Alferes da Bandeira.
Em Porto Feliz, a Festa de São Benedito manteve tais características até por volta de 1940, e era celebrada dentro das tradicionais Festas de Agosto, dias antes da Festa de Nossa Senhora Mãe dos Homens.
A partir de então, passou a ser celebrada no último domingo de janeiro, com tríduo iniciado na quinta-feira anterior. Atualmente, a Missa Solene, acontece depois da procissão, que deixou de acontecer as 17h, transferindo-se para as 9h da manhã.
Reforma da igreja e “roubo” da imagem
Em 1980, a irmandade luta e trabalha pela restauração da igreja de São Benedito, mobilizando toda população, que desejava perpetuar a tradição. Essa restauração ocorreu mesmo contra a vontade do pároco da época o Cônego Humberto Ghizzi, que queria construir uma nova igreja em outro local. Então, quando começou procissão a imagem de São Benedito percorreu as ruas centrais, e na volta da procissão, realizada em 1983, o padre Ghizzi achava que a imagem iria voltar para a matriz, porém, o povo seguiu em procissão até a igreja de São Benedito, devolvendo-a para a Igreja de São Benedito. História esta que já ganhou os palcos do teatro, sendo contada com bom humor.

As Irmandades e o negro

Uma instituição importante do Brasil colonial foram as Irmandades ou Confrarias Religiosas, que certamente desempenharam papel de relevo no tocante à sorte dos escravos, índios, enfim, aos negros. O objetivo das Irmandades era congregar pessoas de fé em vista de uma vivência mais coerente do Cristianismo; na verdade, porém, as Confrarias exerceram o papel de consciência da igualdade de todos os homens entre si: afirmando os direitos de todos aos benefícios religiosos em pé de igualdade com os senhores, tornando-se assim, fator de educação e formação das mentalidades. Os que se congregavam em Irmandades, sentiam-se seres humanos iguais aos seus patrões, certos de que gozavam diante de Deus das mesmas prerrogativas que estes tanto durante esta vida como após a morte.
As Irmandades dos pretos se apresentavam, por vezes, tão bem organizadas quanto as dos brancos. Chegaram a construir suas igrejas e capelas próprias, para escapar à tutela dos brancos; “Como se vê, os Terceiros de São Francisco se submeteram ao julgamento de uma Mesa constituída de pretos, apesar de que sua confraria também abrigava pessoas de categoria elevada: comerciantes ricos e altos dignitários” (lb. p. 34). Como notam os historiadores, as Irmandades “se tornaram o único meio que permitia aos negros, como grupo organizado, ombrear com os demais habitantes da colônia” (ib. p. 6).

* OFM Cap – abreviatura: Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Ordo Fratrum minorum Cappucinorum em latim), família religiosa franciscana. Os religiosos que pertencem a esta ordem colocam a abreviatura após o nome.
** Alguns autores indicam 1526 como o ano de seu nascimento, mas os Frades do Convento de Santa Maria de Jesus consideram que a data certa é 1524
*** congada significa: Bailado popular dramático, em que os negros representavam, entre cantos e danças, a coroação de um rei.

Pesquisa e Texto: Sonia Belon
Revisão e acréscimos:
Elias Martins/Pastoral da Comunicação
Felipe Miranda/Pastoral da Comunicação
Colaboração:Lourdes Kerche do Amaral
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