terça-feira, 19 de abril de 2016

Porto Feliz, Monções duro trabalho dos canoeiros


Sobre o trabalho nos rios monçoeiros, Taunay escreve que essas tripulações
foram certamente vítimas de uma das mais cruéis servidões de que reza a história e que
dificilmente houve galés submetidas a mais duros e estafantes serviços (TAUNAY,
1975 Tomo III. p. 71). Além disso, a fome, o confronto com o indígena e as relações
com um meio hostil faziam com que em muitas ocasiões os tripulantes chegassem até a
fugir. Em algumas expedições se montava ronda junto aos pousos para evitar as
deserções. “Havia o cuidado de contar os homens sempre que entrassem ou saíssem
das canoas. Quem pretendesse deixar o porto devia esperar que se fizesse o sinal, a fim
de acompanhar o guia” (HOLANDA, 1976. p 71). Contudo, conta-se que muitos
remadores untavam o corpo com gordura para não serem agarrados com facilidade ao
tentar fugir (HOLANDA, 1976. p 71).
A PARTIDA DA MONÇÃO VI


Eil-as, as toscas naus de borda rastejante.
À flor das águas, naus de estreitos rios quietos;
Eil-as, prestes a abrir para o sertão distante,
Para assombros de glória, o seu vôo de insetos.

Apinhem-se na praia os velhos, derramando
De encarquilhadas mãos inúteis para mais
A bênção dos que já se sentem bruxuleando
Aos que lhes vão tornar os nomes imortais.

Mães, deixai que, sonhando, a vista embevecida
De vossos filhos pouse, e se ilumine, e aprenda
Nessa formosa folha em que o livro da vida
Tem estrofes de poema e proporções de lenda.
Noivas, com os corações envoltos na penumbra
Indecisa do amor que se orgulha e se doe,
Vinde trazer-lhes vosso olhar de que resumbra
Saudade pelo amante e enlevo pelo herói...

Ao largo, enfim! Clarins e buzinas atroam.
E as canoas, na luz da manhã cor de rosa,
Pairam por um momento em pleno rio; aproam
Para o sertão. E rompe a marcha vagarosa.

Nos barrancos, até rente d′agua investidos
De filhos a sorrir e de mães a chorar,
Lancem as frouxas mãos e os olhos comovidos
O derradeiro adeus e o derradeiro olhar...

©VICENTE DE CARVALHO
In Poemas e canções, 1928
Vicente Augusto de Carvalho foi um advogado, jornalista, político, abolicionista, fazendeiro, deputado, magistrado, poeta e contista brasileiro

Porto Feliz, Monções...canoas, batelões e fabricação


A fabricação de canoas, remos e outros apetrechos para a viagem se desenvolveu nas vilas e povoados próximos ao porto dos cuiabanos, como também era conhecido o porto de Araritaguaba. Ainda em 1826, ocaso do movimento monçoeiro, Hércules Florence, contava, que ia para Porto Feliz, mandar construir canoas e preparar tudo para a viagem de Cuiabá (FLORENCE, 1977. p.17). Diz ainda que, em três meses, os mestres do estaleiro fluvial de Porto Feliz e seus operários haviam preparado dois canoões com 1,65 m de largura, e de 16,5m de cumprimento e de profundidade 1,155 m, feitos de um só tronco de árvore de carvalho e trabalhado por fora, de fundo chato e pouca curvatura. Embarcações pesadas, muito fortes, ainda assim era comum não resistirem aos choques com as pedras impelidas com a rapidez das águas (FLORENCE, 1977. p.19).
Essas observações sobre “os mestres do estaleiro fluvial de Porto Feliz e seus operários” mostram uma atividade organizada remanescente da época áurea das monções. Pessoas viviam de fazer remos, canoas e as atividades econômicas da Vila, embora predominantemente agrícolas eram subsidiadas pela fabricação desses apetrechos. As monções provocaram a organização e o desenvolvimento das atividades econômicas dessa região.
Cabe explicar que, as embarcações monçoeiras eram canoas fabricadas com técnica indígena, em geral feitas de um só tronco, de peroba, ximbaúva ou outra árvore de grande diâmetro e que suportasse bem a umidade; o tipo do canoão monçoeiro adaptado à região amazônica foi apelidado “paulista”, no dizer de José Gonçalves Fonseca. Referia-se a barcos de quatorze e mais metros de comprimento (TAUNAY,
1975. Tomo III. p.65). Segundo Juzarte mediam cerca de, mais ou menos, 12 metros de comprimento e de largura, um metro e meio. O tamanho variava, portanto, de acordo com o diâmetro e comprimento das árvores utilizadas. Na borda, a grossura do casco não excedia a  2 cm de largura.
Sergio Buarque de Holanda registra que a “escassez dos paus de canoa e madeiras de construção acentua-se de modo bem sensível durante a aventura trágica do Iguatemy, e a preocupação causada por essa escassez encontra eco em numerosos documentos oficiais do tempo”(Holanda, 1976. p. 38). Outro inconveniente para utilizar essas canoas em grande escala “foi obstado principalmente pelo muito tempo que consumia o trabalho de derribar, falquejar e escavar certos madeiros” (Holanda, 1976.
p. 32), por isso havia outras canoas que eram feitas com tábuas.
Taunay ressalta que havia canoões enormes com até quinze metros de comprido e quase dois metros de boca. “São agudas para a proa e popa, são à maneira de uma lançadeira de tecelão. Não têm quilha, nem leme, nem navegação à vela” (Holanda, 1976. p. 32).
As embarcações monçoeiras tinham dois espaços vazios nas suas duas extremidades, na proa que era ocupada pelo piloto e o proeiro, cada um com um grande remo para guiar o barco e junto a eles, cinco ou seis remeiros, todos em pé, distribuídos pelo espaço livre da carga. “O remo do piloto é maior que os outros, porque com ele governa a canoa. O do proeiro é maior que o dos remeiros porque com ele desvia a lança dos perigos que se lhe oferecem pela proa. Os remos dos remeiros são todos iguais” TAUNAY, 1975. Tomo III. p. 234). Os passageiros, mal abrigados, se amontoavam na popa.
Para se efetivar a navegação, outro importante instrumento eram as varas que tinham suas juntas de ferro, serviam somente para subir rios, quando não se usavam remos. O preço de um casco dessas canoas variava entre setenta e oitenta mil réis. Algumas poucas canoas que seus proprietários tinham mais posses armavam-se uma espécie de toldo feito de baeta vermelha, formada de liage, para proteger da chuva e do sol os passageiros, mas, ainda assim, o apetrecho protetor era pouco usado, devido a dificuldade de navegação nos rios encachoeirados. A regra era os passageiros viajarem sentados por cima das cargas ou no comprimento livre da popa, a céu descoberto.
Na ocasião das chuvas se desenvolveu uma maneira de se toldar parte da canoa. Um “telhado” onde se forrava uma lona que protegia principalmente a carga e não deixava a água se acumular dentro da canoa, durante as tempestades. Estava sempre à mão pólvora, bala, machados, foices, enxadas e aras de fogo. José Juzarte descreveu com pormenores importantes essas invenções. Também, os desenhos de Hércules Florence são obras preciosas que dão ideia de como eram essas embarcações. Holanda afirma, com base nesses documentos iconográficos, que o critério que presidia a fabricação das
canoas monçoeiras era estritamente utilitário: “no conjunto pouco sugestivo dessas silhuetas sombrias, despidas de qualquer atavio, a nota mais viva é o vermelho da Baeta que servia para as cobertas” (HOLANDA, 1976. p. 73). Dessa observação, conclui o autor sobre a falta de lirismo nos hábitos e na vida social do monçoeiro, reveladas na simplicidade e na falta de nomes pomposos para seus barcos, que não louvavam as mulheres, nem as flores ou os santos, mas simplesmente designava a qualidade da madeira que era construída.

sábado, 16 de abril de 2016


Banda União anos 20


BANDA UNIÃO

História

Aos treze dias do mes de Março de mil oitocentos e noventa e oito, nesta cidade de Porto Feliz, na casa para isso destinada, as quatro horas da tarde, reunidos todos os sócios da nova sociedade musical União – Porto-Felicense; em seguida foi convidado o cidadão Evaristo Rodrigues de Arruda, para ocupar o lugar de diretor que foi aceito e assumiu o cargo. Em seguida foi dicto pelo diretor que se lavrasse a ata da instalação...
Pelas linhas acima deu-se o princípio da trajetória daquela que é, dentre as bandas porto-felicenses, a mais antiga em atividade e a mais longeva dentre todas. Não apenas isso, a Corporação Musical União Porto-Felicense (ou apenas Banda União), figura entre as mais antigas associações de quaisquer espécies em atuação na cidade de Porto Feliz, no interior paulista.
Por definição, a Banda União é uma associação sem fins lucrativos, personalidade jurídica própria com sede e foro em Porto Feliz. Foi fundada a 13 de março do ano de 1898. Foram os seus fundadores o Capitão Evaristo Rodrigues de Arruda (diretor); Manoel José de Calazans (secretário e maestro) e Lourenço Rogado (contramestre); Francisco “Chico de Cristina” Paes de Arruda, Adelino Gomes de Oliveira, Lourenço de Almeida Mello, Antonio Rogado Filho, Pedro “Fogueteiro” Martins de Arruda, Antonio de Toledo Piza, Francisco de Arruda Campos, Américo Antonio de Paula, Bernardino Gomide Machado, Francisco de Almeida e Augusto Liza de Oliveira (músicos).
Algumas fontes citam a data de 29 de junho de 1898 como data de sua fundação. No entanto, tal data refere-se ao evento de lançamento do seu primeiro uniforme: uma reunião de diretores, músicos e simpatizantes a qual constituiu um jantar preparado pelas mais afamadas cozinheiras da cidade. Devido o sucesso alcançado pela festiva reunião, ficou decidido que as comemorações alusivas à fundação se dariam no dia 29 de junho, Dia de São Pedro, àquela época considerado feriado.
Considera-se o apogeu da Banda União as décadas de 1930 e 1940, quando ela tinha o apoio da Societé de Sucréries Brésiliennes, empresa francesa que administrava a usina de açúcar (antigo engenho central) de Porto Feliz. O vínculo se encerrou quando Julien Fouque, o gerente da usina, faleceu no ano de 1949.
No ano de 1960 a Banda União conquistou a sua sede própria, localizada na esquina das ruas Dr. Alvin e Arcílio Borges, no centro de Porto Feliz.

Em meados da década de 1970 firmou um convênio com a então Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, em razão do qual excursionou intensivamente pelo interior do Estado de São Paulo e além, quando em 1978 o representou, a convite do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), na 1ª FENASI (Feira das Nações), realizada na cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião a banda foi acompanhada por um grupo caracterizado como bandeirantes. Tamanho foi o sucesso que as celebrações se arrastaram madrugada adentro, embaladas por incontáveis marchas de carnaval excedentes ao que fora programado para o concerto.
O ano de 1998 foi o do centenário da Banda União. Diversas cerimônias foram realizadas em celebração à data, dentre as quais podemos destacar um grande festival de bandas, a restauração dos antigos livros de atas da corporação e a publicação de um livro intitulado “O Livro da Banda – Histórias e Memórias da Corporação Musical União Porto-Felicense 1898 -1998”. Esta última, porém, não foi completada devido à ausência de recursos (o projeto da publicação do livro devidamente atualizado foi retomado pela atual diretoria).
Berço de alguns dos maiores nomes da história da música em Porto Feliz, a Banda União prossegue em seu caminho glorioso, pois é representante legítima da verdadeira música porto-felicense.
Matriz ontem e hoje


Esporte Clube União

 – Porto Feliz (SP): Fundado em 1916

 HISTÓRIA

 A trajetória do E.C. União se confunde com a história do futebol em Porto Feliz. Afinal, foi o primeiro clube a se organizar oficialmente. A primeira ata registra a presença de personalidades ilustres como José Elias Habice, Samuel de Moares Fernandes, Elpídio Paes de Almeida, José Fernandes de Camargo, João Marinônio de Camargo, Aquiles Ferraz de Oliveira, Apparício Pires, Tales Gonzaga de Campos Leite, Evaristo de Arruda Filho, Joaquim Guilharducci , Gumercindo Taque, Luiz Stettener, José Ferras de Almeida Junior, Francisco Dias Pacheco e os homens que formariam a primeira Diretoria: Aristides Valentim Torres (Presidente), José Esmédio Filho (Secretário), Napoleão Albieiro (Tesoureiro), Francisco Lopes Soares (Procurador) e João Benedick (Diretor).
Nos anos seguintes os sócio-fundadores se revezaram entre uma participação mais efetiva frente à diretoria e o apoio de bastidores, sempre com a espinhosa tarefa de ‘bancar’ os custos da manutenção do Clube.
Os anos corriam e novos nomes iam incorporando-se à grande família unionista. Vieram Jorge Antonio, Aristides Paes de Almeida, Sebastião Xavier Antunes, Pedro Bonini e Inácio Cazelato, que ocuparam a presidência nos anos seguintes. Depois ainda vieram Antonio Pires de Almeida
(Dr Antoninho), Jarbas Pimenta, Tigüera, Coubassier, Juquita, Nicanor, Paiol e Caio.
No ano de 1947, aparece a figura de Ângelo Fustaino. Conhecido como seu Angelim, ele dirigiu o Clube por mais de três décadas -  20 vezes como presidente – e foi o responsável por obras importantes como a construção dos vestiários, sede social, muros, alambrados, cobertura das arquibancadas e nova iluminação.
Depois o União passou pelo comando de várias famílias tradicionais da cidade como Lauro Deóclates e Paulo César Galvão, Valdemar Ravelli, Marco Aurélio Palma, Luiz Antonio, Luiz Armando e Sérgio Ricardo de Carvalho, Clóvis Guadagnini, José Geraldo Pacheco da Cunha Filho, Jorge Luís e Eder René Savioli, Luiz Antonio Antunes, Luís Roberto Monfrim, Alexandre Ambrósio Rubini, Paulo Rogério Sgariboldi, o atual presidente Silvio Assunção de Oliveira e muitos outros, todos deixando sua valiosa colaboração.
Resgatar a história do União é uma tarefa difícil, que exige um mergulho em corações apaixonados de diferentes gerações de jogadores, dirigentes, torcedores e simpatizantes que marcaram passagem pelo Clube.
É possível, entretanto, captar algumas passagens significativas, como as que fazem parte do livro de ‘Reminiscências’, do ex-presidente José Esmédio Paes de Almeida.

Lá consta, por exemplo, que em 12 de agosto de 1933, o União venceu um time misto do São Paulo Futebol Clube por 4 x 1, tendo como árbitro ninguém menos que Arthur Friedenreich, o craque da época. Outra partida histórica relatada no livro de seu Esmedinho diz que o União venceu o então Palestra Itália por 4 x 3, em 19 de junho de 1938, fato inclusive que consta do Almanaque da Sociedade Esportiva Palmeiras.
 Seu Esmedinho, que mais tarde emprestaria seu nome ao estádio da Rua Tristão Pires, foi sem dúvida um grande entusiasta do clube. Foi ele, também, o autor da frase ‘O Mais Querido’, que virou uma espécie de refrão entre os torcedores.
FONTE: Site do Esporte Clube União